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Percepção e realidade: Navegando pela complexidade do teatro corporativo!

A maneira como percebemos o mundo ao nosso redor e, especialmente, como queremos ser percebidos pelos outros, desempenha um papel crucial em nossas vidas. Muitas vezes, nos esforçamos para projetar uma imagem que, embora possa parecer verdadeira, é na realidade uma miragem – uma construção ilusória daquilo que desejamos acreditar ou que queremos que os outros acreditem.


Este texto explora essa dinâmica complexa, investigando como a fenomenologia da percepção humana, a distorção da realidade e o autoengano contribuem para a formação de um "teatro corporativo", onde cada um de nós é ao mesmo tempo o ator e espectador.


Além disso, exploraremos o pensamento de W. Edwards Deming, conhecido por seus princípios de melhoria contínua e gestão da qualidade, e como suas ideias podem servir de contraponto à criação de certas miragens e como apoio também abordaremos a perspectiva de Immanuel Kant sobre ética e moral, refletindo sobre como a busca pela autenticidade se alinha com princípios éticos fundamentais.

 

A Imagem versus a Miragem


A imagem que apresentamos ao mundo é frequentemente uma versão idealizada de nós mesmos. Esta imagem pode ser cuidadosamente construída e mantida através de nossas ações, palavras e aparências. No entanto, esta imagem pode se tornar uma miragem quando se afasta demais da realidade, tornando-se uma ilusão que tanto nós quanto os outros começam a acreditar.


Por exemplo, nas redes sociais, muitas pessoas exibem vidas aparentemente perfeitas, repletas de momentos felizes e realizações. Essas representações, no entanto, podem ser seletivas e exageradas, omitindo as dificuldades e desafios do dia a dia. A razão por trás dessa criação de miragens é multifacetada. Socialmente, desejamos aceitação e validação, e pessoalmente, buscamos uma autoimagem que sustente nossa autoestima, além de profissionalmente, almejarmos ser vistos como competentes e bem-sucedidos.


Deming, em seus estudos sobre gestão e qualidade, enfatizou a importância da autenticidade no processo de melhoria contínua. Ele acreditava que para alcançar a excelência, era essencial uma compreensão honesta e precisa da realidade. A criação de uma miragem contraria os princípios idealizados pelo autor, pois obstrui o verdadeiro crescimento e a melhoria contínua. Este pode ser um dos principais sustentáculos do teatro corporativo. Ao apresentarmos uma versão distorcida de nós mesmos, fruto de uma imersão em uma realidade onde as dificuldades e problemas não são reconhecidos, e ainda patrocinada por líderes rígidos e severos até consigo mesmos, nos afastamos da realidade essencial para promover mudanças significativas que sejam genuínas e eficazes.


Essa tendência de criar uma miragem atualmente é um dos elementos mais comuns e que muitos conseguem rapidamente identificar. Mesmo sendo prejudicial, tal condição se perpetua nas expectativas irreais e dificulta a aceitação da realidade. Quanto mais nos afastamos de quem realmente somos e o que verdadeiramente vivemos, maior é a discrepância entre a imagem projetada e nossa verdadeira identidade, gerando um conflito interno e, muitas vezes, sentimento de insatisfação, frustração e outros mais.

 

Fenomenologia da percepção humana


A fenomenologia, uma abordagem filosófica iniciada por Edmund Husserl, é essencial para entender como percebemos o mundo e a nós mesmos. Segundo essa perspectiva, a percepção não é apenas um processo passivo de receber informações, mas é ativa e interpretativa. Nossas experiências passadas, expectativas e contextos influenciam profundamente a forma como interpretamos o que vemos e sentimos.


A percepção humana enfrenta dificuldades significativas em se ajustar às situações reais, especialmente quando essas situações desafiam nossas crenças ou expectativas preestabelecidas. Um exemplo claro disso é a resistência à mudança. Quando confrontados com novas informações que contradizem nossas crenças, muitas vezes preferimos ignorar ou distorcer essas informações para manter uma visão de mundo coerente com nossas expectativas.


Além disso, o fenômeno da percepção seletiva mostra como tendemos a focar apenas em aspectos da realidade que confirmam nossas crenças, enquanto ignoramos ou minimizamos informações contraditórias. Isso pode ser observado em diversas áreas, desde uma reunião numa empresa onde as pessoas estão se enganado com os dados apresentados através uma bateria irracional de argumentos que buscam invalidar o dado até as situações corriqueira das relações pessoais. A dificuldade em ajustar nossa percepção às situações reais pode levar a uma visão distorcida da realidade, afetando nossa capacidade de tomar decisões informadas e de interagir de maneira saudável com o mundo ao nosso redor e isso a neurociência nos comprova pela teoria dos vieses cognitivos.


Vale comentar que Deming argumentava que decisões eficazes devem ser baseadas em dados concretos e feedback contínuo. Ele defendia a importância de medir e analisar a realidade de maneira objetiva para promover melhorias reais. Essa perspectiva contrasta fortemente com a tendência humana de manter percepções distorcidas para evitar a dissonância cognitiva. Para Deming, a aceitação da realidade, por mais desconfortável que seja, é fundamental para qualquer processo de melhoria contínua.

 

A triste distorção da realidade


A distorção da realidade ocorre quando nossa percepção é alterada de tal maneira que não corresponde à verdade objetiva dos fatos. Essa distorção pode ser resultado de vários fatores, incluindo pressões psicológicas, influências sociais e culturais, e nossas próprias predisposições cognitivas.


Um exemplo comum de distorção da realidade já confirmado pela neurociência é o viés de confirmação, onde buscamos e valorizamos apenas as informações que confirmam nossas crenças preexistentes, ignorando ou desvalorizando evidências contrárias. Esse fenômeno é amplamente observado em debates em que as pessoas estão questionando os dados apresentados, se duvidarem lembre-se da última reunião comercial que participou onde a gestora de vendas apresenta o número e automaticamente os vendedores começa a encontrar pontos para discussões sobre temas controversos, onde as pessoas muitas vezes se prendem a suas posições, independentemente das evidências apresentadas, afinal quem nunca disse que esse relatório não está correto?!


Além disso, a dissonância cognitiva – a tensão mental que surge quando somos confrontados com informações ou situações que contradizem nossas crenças – pode levar à distorção da realidade como uma forma de autopreservação. Para aliviar essa tensão, podemos alterar nossas percepções ou crenças para torná-las mais consistentes com as novas informações, mesmo que isso signifique distorcer a nossa infantil e singela verdade.


Se estiver com dificuldade de entender, pense na influência das redes sociais também é significativa na distorção da realidade. As bolhas de filtro e os algoritmos que priorizam conteúdos que reforçam nossas visões podem criar uma percepção distorcida do mundo, onde nossas crenças são continuamente reforçadas e raramente desafiadas.


Kant, em sua filosofia moral, propôs que devemos agir de acordo com princípios que possam ser universalizados e respeitar a dignidade humana em todas as suas formas. A distorção da realidade muitas vezes viola esses princípios, pois nos permite justificar ações e crenças que não seriam aceitáveis se vistas sob uma luz objetiva. A busca pela verdade e a aderência a princípios morais objetivos são essenciais para evitar a distorção da realidade e promover uma vida ética e autêntica.

 

Autoengano e a formação do teatro


O autoengano é o processo pelo qual convencemos a nós mesmos de algo que, no fundo, sabemos ser falso. Esse fenômeno é intrincadamente ligado à criação de um "teatro", onde representamos papéis para nós mesmos e para os outros. O autoengano nos permite manter uma autoimagem positiva, mesmo que isso signifique ignorar ou justificar comportamentos ou fatos que contradizem essa imagem.


Por exemplo, uma pessoa pode se convencer de que é uma excelente profissional, mesmo quando recebe críticas construtivas que indicam áreas de melhoria. Esse autoengano pode ser mantido através da racionalização – justificando falhas e atribuindo-as a fatores externos – ou através da negação – recusando-se a aceitar a validade das críticas.


A formação desse “teatro” tem várias consequências. Por um lado, pode proporcionar um conforto temporário, protegendo nossa autoestima. Por outro lado, pode levar a uma desconexão da realidade, dificultando o crescimento pessoal e a capacidade de lidar com críticas e desafios de maneira construtiva.


Além disso, o autoengano pode afetar negativamente nossas relações interpessoais. Quando criamos uma miragem de nós mesmos e insistimos em mantê-la, podemos afastar as pessoas que percebem a discrepância entre nossa imagem projetada e nossa verdadeira identidade. A longo prazo, isso pode resultar em isolamento e insatisfação pessoal.


Kant argumentava que a moralidade exige autenticidade e integridade. O autoengano, ao criar uma dissonância entre nossa autoimagem e nossa verdadeira identidade, viola esses princípios morais. A busca pela autenticidade não é apenas uma questão de bem-estar pessoal, mas também uma obrigação ética para com nós mesmos e com os outros. Ser verdadeiro em nossas ações e percepções é fundamental para viver uma vida moralmente íntegra e autêntica.

 

Para fechar...


Em última análise, a tendência humana de criar miragens e distorcer a realidade reflete uma necessidade profunda de validação e aceitação. No entanto, essa busca por uma imagem idealizada pode nos afastar da verdade e prejudicar tanto nosso bem-estar pessoal quanto nossas relações interpessoais. Reconhecer e confrontar nossas próprias miragens e distorções é essencial para viver de maneira autêntica e satisfatória. Ao abraçar a complexidade da percepção humana e estar abertos a ajustar nossas crenças e percepções, podemos cultivar uma compreensão mais verdadeira e significativa de nós mesmos e do mundo ao nosso redor. Integrar os princípios de Deming de melhoria contínua e a ética kantiana pode nos guiar em direção a uma vida mais autêntica e moralmente íntegra e isso é o que devemos realmente repensar para avançar como pessoas que buscam mais uma atuação humana, ética e próspera.


Keine Alves

Líder educador e pesquisador


 
 
 

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