Israel depois do 7 de outubro o que eu vi em Tel Aviv e o que CEOs e investidores precisam enxergar
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 7 min de leitura

Voltei de Israel com uma impressão que não cabe bem em estatística, porque ela vem do corpo e do olhar, e ela é simples de dizer e difícil de ignorar. A vida segue, e segue bem, não no sentido ingênuo de que está tudo normal, mas no sentido mais sério e antigo de uma sociedade que se recusa a ser definida pelo choque, que reorganiza o cotidiano, protege o essencial e continua construindo, como quem sabe há gerações que desistir nunca foi uma opção.
Nessa ida agora, inclusive para participar da Cybertech em Tel Aviv, o que me marcou foi justamente a combinação rara de gravidade e normalidade, uma sobriedade em movimento que você percebe no jeito de andar, no jeito de falar, no jeito de decidir. Você sente a tensão, mas vê cafés cheios, reuniões acontecendo, gente discutindo negócios, mercado, risco e execução com o mesmo pragmatismo de sempre, e aí a palavra resiliência deixa de ser bonita e vira aquilo que ela é em Israel, um método de vida.
Eu também não falo de Israel como turista emocionado, porque tenho raízes, sou judeu, e faço negócios com empresas israelenses há mais de vinte anos, tempo suficiente para entender que existe um jeito israelense de fazer as coisas acontecerem que confesso parecer uma filosofia prática e pragmática. É direto, rápido, sem cerimônia, com pouco apego a formalidades e muito apego a solução e resultado, inclusive financeiro, e é exatamente essa que no Brasil se classifica como dura, objetiva e que procura eficiência que abre oportunidades imensas para quem entra com respeito, preparo e ambição real.
Em um desses encontros durante a minha passagem por lá eu tive a oportunidade de interagir com Izhar Shay, ex-ministro da Ciência de Israel, e ali ficou evidente uma coisa que muita gente insiste em não enxergar. Em Israel não se tenta vender otimismo, o que existe é um padrão de trabalho e atuação consistente, quase uma cultura de engenharia aplicada à vida, em que crise não vira desculpa e tensão não vira paralisia, vira direção.
O que ele colocou na mesa, com a naturalidade de quem já viveu ciclos duros demais para fazer pose, é que o mundo high tech em Israel não é apenas um setor econômico, é uma resposta civilizatória, e isso se expressa também na iniciativa Next October. Eu saí com três eixos bem definidos na cabeça, resiliência como estrutura histórica, disrupção como motor econômico e determinação como pacto humano, porque sem esse tripé não existe continuidade, só existe barulho.
A leitura que interessa a Executivos, CEOs e investidores é simples. Num mundo em que risco geopolítico virou variável permanente, quem sobrevive não é quem tenta prever tudo, é quem absorve choque e volta ao trilho sem perder comando, e Israel, goste-se ou não, tem décadas de treino institucional e cultural nessa arte, por isso se desenvolve como referência em múltiplas frentes.
Na nossa conversa, o pós 7 de outubro apareceu como trajetória de recuperação rápida, depois de uma queda forte em outubro e no quarto trimestre de 2023, com retomada de consumo, melhora de indicadores de desemprego e retorno ao rumo anterior de crescimento do PIB. Isso não prova perfeição, prova capacidade de recomposição, e recomposição, no mundo real, é o que separa tese de fantasia, especialmente no universo de tecnologia.
O ponto mais forte para mim foi perceber como ele encaixa essa recuperação dentro de um padrão histórico, lembrando que Israel já atravessou choques como a Primeira Guerra do Golfo, a Segunda Guerra do Líbano, períodos de Intifada e a própria Covid 19, e repetidamente voltou a crescer. Eu valorizo essa perspectiva porque ela é tradicional no melhor sentido, respeita o passado, lê a continuidade, e não se deixa hipnotizar pelo ineditismo que o noticiário vende.
E aqui entra um dado que muda a conversa, high tech e cibersegurança continuam sendo motores primários da força econômica nacional, e a expectativa explícita é que o próximo outubro seja melhor. Quando um país fala assim depois do que viveu, não é slogan, é compromisso público com reconstrução, e compromisso, quando é verdadeiro, vira disciplina.
Na prática, o que eu vi na Cybertech é coerente com isso. Não existe espaço para romantismo quando o ambiente obriga a ser competente, e competência em tecnologia significa engenharia sólida, decisão rápida, validação dura e uma cultura que prefere o problema real à apresentação bonita.
Também ficou claro que o investimento no high tech israelense vem crescendo trimestre a trimestre, com força no primeiro semestre de 2024, sustentação ao longo de 2024, e uma expectativa que se confirmou positiva em 2025 e mantém tendência para 2026. Isso interessa por um motivo bem objetivo, investimento não é opinião, investimento é aposta com dinheiro, e dinheiro tem aversão natural a ambiente instável, quando ele entra, é porque enxergou entrega e retorno.
O detalhe decisivo é a origem do capital, algo na ordem de 70 por cento do funding vindo de investidores estrangeiros, com peso de private equity e grandes VCs da América do Norte e Europa, além de participação da região da Ásia e Pacífico. Capital estrangeiro não compra narrativa local, compra execução e potencial de saída, quando ele permanece, ele está dizendo, sem poesia, que a máquina ainda funciona, e funciona bem.
A direção do ciclo também é nítida, cibersegurança como uma das maiores áreas de investimento, conectada a deep tech, defesa e IA generativa, não como modinhas paralelas, mas como núcleo articulado da economia de inovação. O mundo inteiro está redesenhando seus sistemas sob a mesma pressão, confiança, proteção, continuidade operacional, soberania de dados, combate a fraude em escala, e quem entende isso cedo governa melhor o próprio risco.
Eu chamo isso de infraestrutura invisível do século. Segurança deixou de ser departamento e virou fundamento, IA deixou de ser ferramenta e virou camada, deep tech deixou de ser laboratório isolado e virou vantagem competitiva, e Israel se tornou um concentrador dessas competências porque foi empurrado pela história a levar a sério o que muita empresa só descobre quando já é tarde.
Quando se fala em Startup Nation, o que faz sentido não é o slogan, é a densidade. Algo perto de 9 mil empresas de high tech, cerca de 500 corporações internacionais ativas no país, e milhares de investidores alimentando o ecossistema, e densidade é vantagem silenciosa porque encurta o tempo entre ideia e mercado, acelera parceria e aumenta a taxa de soluções que de fato chegam ao mundo.
E tem um número que deveria ser repetido com seriedade em qualquer conversa de conselho. A turma de high tech sendo algo em torno de 10 por cento da força de trabalho e respondendo por cerca de um terço dos impostos do país, isso muda o status do setor, deixa de ser vertical promissora e vira coluna fiscal e estratégica, e quando você enxerga isso, você entende por que o país protege esse motor como quem protege uma artéria.
Nesse pano de fundo, entram os exits e as aquisições como sinais de liquidez e validação, e apareceu como exemplo uma aquisição citada no ecossistema envolvendo Google e a Wiz. Eu não amarro a tese nisso porque a tese é estrutural, mas eu uso como sinal do tipo de jogo que se joga ali, construir valor real, tornar-se desejável, transformar inovação em negócio de escala.
E teve uma frase que ficou ecoando na minha cabeça, atribuída ao Dan Loeb. Se Israel fosse uma ação, eu compraria muito dela. Você pode discordar do entusiasmo, mas não pode ignorar o símbolo, tem investidor lendo resiliência como ativo subavaliado.
A terceira frente, para mim, é a mais profunda, porque sustenta as outras quando a racionalidade econômica sozinha não dá conta. Next October aparece como uma forma de honrar os que foram perdidos e converter luto em criação, com a menção de mais de 2.000 vidas perdidas, metade entre soldados e forças de segurança e metade civis, e esse dado não é estatística neutra, é ferida coletiva.
A premissa é direta. O próximo outubro será melhor porque Israel seguirá construindo economia, inovação e espírito empreendedor como demonstração de resiliência. Isso é o oposto de paralisia, é uma escolha civilizacional, e escolhas civilizacionais são o que sustentam sociedades por décadas, não por trimestres.
O lema é claro. Eles, conhecido como um tipo de grupo que lutam pelos seus direitos, mas de verdade são terroristas, vieram para destruir. Nós, judeus e israelenses estamos aqui para construir um mundo melhor. E o método é simples e genial, conectar startups a famílias enlutadas para cocriar homenagens personalizadas, produzindo histórias e projetos que honrem a memória e reforcem famílias, fundadores e times, porque quando a memória vira obra, ela para de ser peso e vira direção.
Isso cria comunidade em torno de cada homenageado, alinhando valores, rede e encaixe de equipe, e quando você vê crianças, soldados, cidadãos e gente do dia a dia envolvidos, você entende a mensagem sem precisar de discurso. Coesão social não é frase, coesão social é costura, e costura dá trabalho.
Há um exemplo simbólico forte. Um produto que salva vidas carrega também nome e história de alguém, com a ambição de que, ao chegar a 10 mil pessoas, a memória e a mensagem de resiliência cheguem junto. Isso é memória como ação, tradição como direção, e quem entende o peso da tradição judaica sabe que lembrar nunca foi apenas recordar, é orientar.
O relato que mais me tocou é o efeito sobre as famílias, quando pareadas com startups, elas se sentem protegidas, animadas e esperançosas, e existe uma disposição generalizada de ajuda quando as pessoas percebem que a iniciativa está ativa desde outubro. Esse é um tipo de capital que pouca gente contabiliza, capital social, a cola invisível que mantém de pé o que dinheiro nenhum sustenta sozinho.
Eu termino com a leitura que trago dessa ida. Israel está ferida, mas não está rendido. Está sob pressão, mas não está paralisada. E quando você soma repertório histórico de recuperação, densidade real de ecossistema tech e um pacto social que transforma luto em obra, você entende por que CEOs e investidores sérios continuam olhando para o país não como notícia, mas como tese, e por que gigantes globais seguem apostando em desenvolvimento e pesquisa ali mesmo quando o ambiente está duro como é o caso da gigante NVIDIA.
Se você é CEO ou executivo, a pergunta é se a sua empresa tem coluna de sustentação para atravessar crise sem perder comando, método de resiliência, cultura de execução, clareza moral e capacidade de reconstrução.
Se você é investidor e conselheiro, a pergunta é se você está avaliando risco pela régua do noticiário e do ruído, ou pela régua da estrutura e dos dados que se apresentam.
Se estiver nesse caminho certamente estará tomando as melhores decisões.
Se você leu até aqui e quer entender mais sobre o tema ou ver isso de perto do jeito certo, sem turismo corporativo e sem powerpoint vazio, existe um caminho.
Pois levar você para dentro desse ecossistema de uma forma ou de outra é um objetivo nosso, pois conversar com quem constrói, entender as camadas de decisão e voltar com teses, redes e direção, se faz muito importante para quem procura cultivar o progresso constante em seus negócios. Se fizer sentido, eu e minha equipe estamos à disposição para uma conversa sobre o tema.



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