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O desafio empresarial da defasagem para o contínuo desenvolvimento dos negócios

Há quase 30 anos venho atuando como empresário, educador e investidor de negócios, e, mais recentemente nos últimos quase 15 anos, como pesquisador dedicado ao tema, inclusive de forma filosófica em função da conexão com o mundo do compliance e do comportamento humano no trabalho.


Ao longo dessa jornada, tenho observado de perto inúmeros desafios organizacionais comuns as empresas dos mais variados segmentos e portes. Um dos mais preocupantes e recorrentes é justamente a questão do tempo de resposta que a empresa apresenta diante das exigências do mercado ou frente aos problemas internos que enfrenta.


Penso que todos sabem que estamos vivenciando tempos de transformações exponenciais, nos quais somos puxados por um mercado que acelera em várias direções em função das tecnologias emergentes, da globalização ampliada e das mudanças constantes no comportamento de consumidores e colaboradores que contribuem para um ambiente altamente volátil.


Apesar dessa realidade dinâmica, uma significativa parcela das empresas ainda opera com uma lógica própria e baseada num tempo que já se findou, ou seja, com ritmos internos e conteúdos descompassados e frequentemente desconectados dessas situações atuais.


Essa diferença crítica entre a velocidade das mudanças e a capacidade de reagir rapidamente é o núcleo do "desafio empresarial" que escolhi partilhar nesse artigo e que também é descrita por Peter Senge como o problema da "defasagem empresarial".


Inclusive no meu dia a dia, tenho presenciado continuamente os impactos negativos dessa defasagem, tais como perdas significativas de mercado, diminuição da relevância, deterioração dos resultados financeiros e, em casos mais extremos, até mesmo a morte precoce de muitas organizações.


Portanto, neste artigo além de compartilhar minhas reflexões e observações práticas sobre este desafio, irei contribuir com alguns pontos concretos para a superação dele, mas para isso precisamos começar entendendo mais sobre o problema da "defasagem empresarial".


A defasagem empresarial segundo Peter Senge e seu funcionamento


Antes de tudo, vale comentar que Peter Senge é um renomado autor e professor do MIT, que explica a defasagem empresarial como um atraso entre uma mudança significativa no ambiente externo e a resposta interna das organizações a essa mudança.


Para ilustrar claramente esse conceito, gosto de utilizar uma metáfora simples e cotidiana que é a do chuveiro a gás.


Ao tentar regular a temperatura ideal da água, muitas vezes ajustamos a torneira do quente e do frio, mas há um atraso até que percebamos os efeitos desses ajustes.


Além disso, intervenções ou usos simultâneos em outros pontos do sistema de água podem alterar inesperadamente essa temperatura ideal.


Essa experiência simples exemplifica perfeitamente a dinâmica da defasagem empresarial, onde as empresas ajustam suas estratégias e ações esperando resultados imediatos, mas a resposta interna demora a aparecer e, frequentemente, é impactada por outras variáveis não percebidas inicialmente.


Em minha experiência, vejo essa defasagem constantemente em várias organizações e um exemplo comum é a lentidão na reação às mudanças tecnológicas.


Algumas empresas, presas a um modelo operacional ultrapassado, demoram a perceber que uma nova tecnologia já domina o mercado e acaba se tornando indispensável.


Quando finalmente se dão conta disso, já perderam participação significativa, e muitas vezes, enfrentam desafios diversos, inclusive o financeiro de superar.


Outro ponto crítico que percebo em minha experiência é a desconexão estratégica entre departamentos e áreas. Muitas vezes, equipes internas operam como "ilhas", trabalhando com objetivos desconexos e métricas desalinhadas.


Essa falta de integração gera desperdício de recursos, tempo e energia, e compromete a capacidade da empresa de reagir rapidamente às demandas do mercado.


Não posso também deixar de fora desse artigo o excesso de burocracia, que paralisa muitas organizações. Empresas insistem em processos complexos e burocráticos e que acabam por enfrentar dificuldades enormes para implementar mudanças rápidas e necessárias, com isso as oportunidades se perdem, e problemas que poderiam ser resolvidos rapidamente acabam ganhando proporções maiores e mais custosas.


Outro ponto que vem crescendo nas minhas observações é um comportamento predominante de imediatismo e impaciência diante dos desafios. Em um mercado tão dinâmico, a paciência e a visão de longo prazo são fundamentais para construir soluções robustas e sustentáveis.


No entanto, muitas organizações buscam soluções rápidas e superficiais que não resolvem os problemas estruturais, criando uma falsa sensação de resolução, mas ampliando a defasagem em longo prazo e tornando seus investimentos para solução ineficiente.


Por último, e talvez mais crítico que percebo, está na falta de visão sistêmica. Muitas lideranças e equipes falham em perceber esses movimentos silenciosos na organização como um sistema interligado. Quando não conseguem enxergar o todo, as ações são isoladas, as consequências inesperadas são constantes, e o aprendizado organizacional é extremamente limitado.


As consequências práticas são visíveis e alarmantes. Empresas que sofrem de defasagem acabam enfrentando na prática problemas como esses que partilhei e que geram a queda acentuada nas vendas, perda de participação de mercado para concorrentes mais ágeis, diminuição na satisfação do cliente e até mesmo crises internas marcadas por conflitos e baixa motivação dos colaboradores.


Ao reconhecer esses problemas e suas consequências, torna-se urgente a reflexão sobre como minimizar a defasagem empresarial. É sobre esses caminhos práticos de solução que pretendo abordar a seguir e para isso vou partilhar um outro ponto que o professor Peter Senge me ensinou e que pude colocar em prática para colher bons frutos.


A importância de cultivar uma empresa que aprende


Para enfrentar a defasagem empresarial, Peter Senge propõe a ideia da "organização que aprende", capaz de continuamente adaptar-se ao ambiente externo.


Empresas assim não só respondem rapidamente às mudanças, como também conseguem antecipá-las, garantindo sua competitividade sustentável e isso é um dos objetivos que aplicamos em nossos processos de inteligência aplicada.


Para isso ele detalha os cinco pilares que são: pensamento sistêmico, modelos mentais, visão compartilhada, aprendizado em equipe e domínio pessoal.


O primeiro que é o pensamento sistêmico permite entender como ações isoladas impactam toda a organização. Já o segundo que é ligado aos modelos mentais moldam crenças e atitudes das equipes, essenciais para aceitar novas abordagens.


O terceiro que é a visão compartilhada promove uma espécie de alinhamento estratégico, direcionando claramente os esforços das equipes e algo que reforçamos com a metodologias complementares como os OKRs e outras.


O quarto pilar, que é chamado de aprendizado em equipe passa a ser estimulado à luz da colaboração e do diálogo contínuo, ampliando o conhecimento coletivo a uma potência maior.


Por fim, o último pilar que é o domínio pessoal que envolve o desenvolvimento constante das habilidades individuais de cada profissional na empresa à luz dos desafios reais, promovendo assim as condições necessárias para a superação, gerando motivação e engajamento genuíno.


Os resultados promovidos por essas abordagens são claros e mensuráveis, pois vão muito além de uma maior colaboração, agilidade na adaptação ao mercado, aumento na maturidade, engajamento e satisfação das equipes, chega inclusive ao ponto de contribuir com a derrubada da máscara coletiva do teatro corporativo, que é um outro assunto para um outro artigo.


Portanto, tornar uma empresa que aprende é mais do que uma estratégia inteligente, é uma necessidade crítica em tempos de mudanças rápidas e constantes. Investir nesse caminho não só reduz a defasagem, como também estabelece bases sólidas para um desenvolvimento contínuo e sustentável.


Para fechar...


Penso que enfrentar a “defasagem empresarial” demanda mais do que reconhecer o problema, exige uma transformação profunda na forma como sua empresa entende e aprende para realizar suas mudanças.


E atenção, criar uma organização que aprende é aceitar que o mundo empresarial atual requer adaptação contínua, abertura à mudança e, sobretudo, disposição para desaprender antigos modelos que já não servem mais.


Portanto, fica aqui um convite à reflexão: 


O que sua empresa precisa desaprender urgentemente para acompanhar o ritmo acelerado do mercado atual?


Que práticas ou crenças arraigadas estão limitando sua capacidade de inovação e resposta ágil?

E quais são os primeiros passos que você pode dar agora para se tornar verdadeiramente uma organização que aprende?


Responder honestamente a essas perguntas pode ser o primeiro passo decisivo para reduzir a defasagem empresarial e assegurar que sua empresa se torne ou permaneça relevante, competitiva e sustentável diante das transformações constantes do mercado.


Keine Alves

Líder educador e pesquisador


 
 
 

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