Sísifo, Camus e o empresário, líder ou gestor na busca por sentido
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 8 min de leitura

Existe um tipo de cansaço que não vem do corpo. Vem da repetição. Vem do recomeço. Vem da sensação de que, por mais que você avance, algo volta para o ponto anterior. O empresário, líder ou gestor conhece isso de perto. Ele fecha um ciclo e outro começa. Resolve um problema e outro aparece. Organiza uma área e uma nova urgência invade. Parece progresso, mas muitas vezes é apenas manutenção do que não pode parar.
Para falar disso com seriedade, vale trazer uma história antiga e um pensador moderno. Só que eu preciso fazer do jeito certo, porque muita gente nunca ouviu falar nem do mito nem do autor. Então vamos direto ao essencial, sem mistério.
Sísifo é um personagem da mitologia grega. Ele é descrito como um rei esperto, que enganou deuses e tentou fugir do destino. Como punição, foi condenado a uma tarefa eterna. Empurrar uma grande pedra montanha acima até o topo. Quando a pedra chega perto do alto, ela rola de volta e cai. Sísifo desce, pega a pedra e recomeça. Para sempre. Não existe final feliz, não existe vitória, não existe ponto de chegada. Existe repetição.
Albert Camus foi um escritor e pensador do século vinte. Nasceu no norte da África, escreveu romances, peças e ensaios e ficou conhecido por encarar uma pergunta que muita gente evita. Como viver quando a vida não entrega respostas prontas. Ele escreve um ensaio famoso chamado “O Mito de Sísifo”, onde usa essa história antiga como espelho do cotidiano humano. Camus não quer explicar o universo, ele quer encarar o que sentimos quando a realidade não obedece a nossas expectativas.
A ideia central de Camus é simples e dura. Nós queremos sentido, coerência, justiça e garantia. O mundo, por outro lado, é silencioso, instável e nem sempre justo. Esse choque entre o que desejamos e o que o real oferece é o que ele chama de absurdo. Absurdo não é dizer que nada presta. Absurdo é perceber que a nossa sede de significado encontra um mundo que não assina contrato com a nossa sede.
O empresário, líder ou gestor vive esse choque com força máxima no seu dia a dia. Porque ele precisa produzir resultados em um cenário onde quase tudo muda. Ele faz planejamento, mas a economia vira. Ele treina gente, mas alguém sai ou não aprende. Ele organiza processos, mas o cliente muda a regra no meio do jogo. Ele constrói produto, mas o concorrente aparece. Ele tenta controlar, mas descobre que controle total é fantasia.
E aí nasce um risco que corrói por dentro. O empresário, líder ou gestor é pressionado a parecer seguro o tempo inteiro. Precisa comunicar confiança para o time, para o cliente, para o sócio, para a família. Só que a vida real é cheia de incerteza. O resultado costuma ser um belo teatro. Ele não sabe, mas finge que sabe. Ele tem medo, mas finge que não tem. Ele está exausto, mas finge que aguenta. Esse teatro custa caro. O corpo cobra. A mente cobra. A cultura da empresa cobra.
Camus não oferece anestesia. Ele recusa o consolo barato. Ele diz que existem fugas comuns diante do absurdo, e elas aparecem também no mundo dos negócios.
A primeira fuga é a mentira otimista. Aquela frase interna que diz que tudo vai dar certo só porque precisa dar certo. É esperança sem base, usada como calmante.
A segunda fuga é o cinismo. Aquela postura que diz que nada importa, que todo mundo é igual, que não vale a pena tentar fazer direito. Parece maturidade, mas é desistência sofisticada.
A terceira fuga é a distração. Encher a agenda, encher a tela, encher a vida de ruído, para não ouvir a pergunta que fica no fundo. Para quê e para quem eu faço o que faço?
Diante de uma pergunta dessa envergadura, essas fugas são comuns, mas não resolvem nada. Só adiam o encontro. E o encontro sempre chega.
Agora vem a virada de Camus. Ele não pergunta como escapar da pedra. Ele pergunta como viver empurrando a pedra sem se destruir. Ele chama isso de lucidez.
Lucidez é olhar a realidade como ela é. Sem maquiagem. Sem propaganda interna. Sem autoengano. O empresário, líder ou gestor lúcido entende que a empresa nunca vai ser um lugar de controle perfeito. Nunca. Sempre haverá variável nova. Sempre haverá gente imprevisível. Sempre haverá risco. Sempre haverá ruído. A lucidez não elimina o risco. Ela elimina a fantasia que tanto nos atrapalha.
E aqui aparece o detalhe mais humano do mito. Sísifo sofre menos na subida do que na descida. A descida é o momento em que ele está sozinho, consciente, sem distração, sem esperança de que agora será diferente. Ele sabe que a pedra vai cair. Ele conhece a regra do jogo. E mesmo assim ele desce para recomeçar.
O empresário, líder ou gestor também tem sua descida. É o fim do dia quando não deu nada certo. É o caminho de volta para casa com a pressão do trabalho. É a porta fechada do escritório e o peso da responsabilidade de voltar e abrir no dia seguinte. É a madrugada em que a mente não desliga mesmo quando o corpo pede trégua. É os pós reunião difícil. É o pós crise. É quando não há plateia para ajudar no espetáculo. É quando não há discurso pronto. É quando sobra a verdade nua e crua, da vida como ela é.
Nesse ponto, muita gente se perde por um motivo específico. Confunde identidade com resultado. O empresário, líder ou gestor começa a se medir por faturamento. Se o mês foi bom, ele vira euforia. Se o mês foi ruim, ele vira vergonha. Ele deixa de ser pessoa e vira indicador. Essa é uma forma de escravidão moderna. E ela é aceita socialmente, o que torna tudo pior.
Camus oferece uma saída que é exigente. Ele chama de revolta. Revolta aqui não é gritaria. Revolta é recusa de mentir. É dizer por dentro que você não vai se vender para um conto confortável. Você vai encarar a realidade e ainda assim escolher viver com dignidade.
No mundo empresarial, isso tem consequências claras. Revolta é parar de usar a empresa como prótese emocional. Parar de usar crescimento como remédio para vazio. Parar de usar performance como substituto de sentido. O empresário, líder ou gestor que não se conhece transforma a empresa em altar e se sacrifica para manter a imagem. Ele trabalha para ser visto, não para construir algo que presta. Ele faz do negócio uma religião e vira refém do próprio culto.
Isso não é só um problema pessoal. Isso contamina a organização. Quando o empresário, líder ou gestor vive de aparência, ele cria cultura de aparência. Quando ele vive de medo, ele cria cultura de medo. Quando ele vive de pressa, ele cria cultura de pressa. E pressa constante é um jeito eficiente de destruir qualidade, destruir aprendizado e destruir gente.
Se você quer algo mais tradicional e verdadeiro, volta ao básico. Antes do glamour, existia o ofício. Antes do palco, existia a reputação. Antes do excesso de promessa, existia palavra cumprida. As melhores empresas sempre foram sustentadas por coisas antigas. Disciplina, padrão, educação, desenvolvimento, rotina, cuidado com o cliente, responsabilidade com pessoas, consistência, humildade para aprender.
Isso não é nostalgia. Isso é estrutura. O futuro não elimina o básico. O futuro cobra o básico com mais rigor.
E aí chegamos numa distinção que faz falta hoje. Significado e sentido para seguir mesmo quando as coisas estão bem ou não.
Significado é a história que o empresário, líder ou gestor conta sobre o que faz. Pode ser uma boa história. Pode ser uma história bonita. Pode até ser verdadeira. Mas ainda assim pode virar apenas justificativa.
Sentido é direção interna. É o critério que organiza as escolhas quando ninguém está vendo. É o que sustenta decisões difíceis. É o que impede o empresário, líder ou gestor de trair seus valores por conveniência.
O perigo do nosso tempo é que ele vende significado em embalagem pronta. Narrativas de sucesso, frases de efeito, cultura de vitória, promessa de liberdade total. O empresário, líder ou gestor compra isso e se empolga. Só que a pedra não respeita narrativa. A pedra respeita realidade. E quando a pedra cai, o significado decorativo cai junto.
O que fica de pé é o sentido. E o sentido, na prática, aparece em perguntas simples e duras.
O que eu estou construindo presta? Eu me orgulho do jeito que eu trato as pessoas? Eu cumpro o que eu prometo quando custa caro? Eu escolho qualidade ou eu escolho pressa? Eu protejo a cultura ou eu deixo virar improviso? Eu estou formando gente ou estou consumindo gente? Eu estou servindo o cliente ou estou usando o cliente? Eu estou sendo honesto comigo mesmo ou estou me enganando?
Esse tipo de pergunta é o começo de uma vida mais íntegra e cabe dizer que não tem certo ou errado e sim o que você decidir. E é aqui que Camus faz sua frase mais provocativa. Ele diz que precisamos imaginar Sísifo feliz.
Isso soa estranho para quem ouve pela primeira vez. Como alguém condenado a repetir pode ser feliz. A resposta de Camus é uma resposta de soberania interna. Sísifo não é feliz porque a tarefa é boa. Ele é feliz porque recuperou posse de si e decide por si. Ele vê a realidade, aceita que não há final mágico, e ainda assim não se reduz. Ele não é a pedra. Ele não é o castigo. Ele é a consciência que escolhe a postura.
Para o empresário, líder ou gestor, isso vira um caminho muito concreto. Você não controla tudo, mas controla sua integridade. Você não garante o mundo, mas garante seu padrão. Você não impede toda crise, mas decide como reage. Você não elimina a repetição, mas decide se ela vai te degradar ou te fortalecer.
E aqui entra um ponto que pouca gente gosta de admitir. A empresa é também uma escola de caráter. Ela revela. Ela testa. Ela mostra o que está escondido.
Se o empresário, líder ou gestor é vaidoso, a empresa amplifica a vaidade. Se o empresário, líder ou gestor é inseguro, a empresa amplifica a necessidade de controle. Se o empresário, líder ou gestor é ansioso, a empresa amplifica a pressa. Se o empresário, líder ou gestor é íntegro, a empresa amplifica a confiança. Se o empresário, líder ou gestor é disciplinado, a empresa amplifica a consistência.
Por isso, a busca de sentido não é luxo. É o caminho para superar a sobrevivência. Sem sentido, o empresário, líder ou gestor vira funcionário do próprio ego. Trabalha muito, entrega muito, mas vive vazio. E esse vazio não some com resultado. Resultado não compra paz. Resultado não compra coerência. Resultado não compra presença.
A saída é simples de dizer e difícil de praticar. Criar espaço para a descida. Criar silêncio. Criar exame. Criar revisão real.
O empresário, líder ou gestor que não para nunca não é forte. Ele é fugitivo. Ele corre para não se encontrar. Só que o encontro vem, cedo ou tarde. Se não vem por decisão, vem por colapso.
Agora, para fechar, vou convidar o velho Sócrates para o final. Não como frase bonita, mas como método de busca. A velha ideia socrática é brutal de tão útil. Sábio é aquele que sabe que não sabe.
Isso é humildade intelectual. Isso é postura de aprendizagem. Isso é antídoto contra o orgulho que destrói negócios e pessoas. O empresário, líder ou gestor que acredita demais em si mesmo fica cego. Ele se apaixona pelas próprias respostas. Ele deixa de fazer perguntas. Ele para de aprender.
O empresário, líder ou gestor sábio, no sentido socrático, faz o contrário. Ele se mantém aprendiz. Ele desconfia das certezas rápidas. Ele renova repertório. Ele revisa premissas. Ele volta ao fundamento. Ele aprende com a realidade, não com a própria narrativa. Ele reconhece que o mundo muda e que ele precisa mudar também, sem perder os princípios antigos que sustentam o que é bem-feito.
E é por isso que o Natal pode ser mais do que um rito social. O Natal pode ser uma pausa com propósito. Um momento de encontro consigo mesmo. Um ajuste interno. Uma revisão honesta. Um retorno àquilo que importa.
Que o Natal seja o momento para você que é empresário, líder ou gestor se encontrar consigo mesmo, com menos ruído e mais verdade. E que seja também o momento de renovar os nossos saberes, lembrando a lição socrática que mantém a mente viva e o caráter inteiro. Sábio é aquele que sabe que não sabe. E é nessa busca, séria e humilde, que o sentido se torna possível, assim como a empresa dos desejos e os resultados almejados de forma plena e única.



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