Quando o líder encontra o real e escolhe parar, mentir para si ou sustentar a lucidez
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 6 min de leitura

Existe um ponto de vista que quase ninguém nomeia direito no mundo corporativo. Todo líder que vive isso a sério já sentiu isso na pele, mas quase nunca conseguiu explicar o que acontece por dentro quando esse fenômeno aparece. É um instante, às vezes silencioso, às vezes barulhento, em que o empresário, o executivo, o conselheiro ou o gestor percebe que a realidade não está negociando com a sua expectativa. Ele olha para o negócio e sente uma fricção que não é só pressão de meta, não é só concorrência, não é só operação. É mais profundo. É como se o mundo dissesse, sem palavras, que não existe garantia para aquilo que você idealizou, planejou ou acredita que merece.
Você pode fazer tudo o que era para ser feito e ainda assim perder o resultado que gostaria. Pode investir, treinar, organizar, padronizar, cuidar do cliente, cuidar do time, e o mundo te devolver atraso, ruptura, crise, gente indo embora, margem murchando e uma curva de esforço que não combina com o retorno. Se você tirar o verniz emocional e motivacional desse contexto, o que sobra é um choque entre a sede humana por sentido, reconhecimento, resultado e justiça e a indiferença prática do mundo real.
É aqui que eu trago Camus com cuidado para não empobrecer a sua ideia filosófica presente na corrente existencialista. Absurdo, em Camus, não é decisão burra, não é ignorância simples, não é falta de inteligência. O absurdo nasce quando a consciência percebe a ruptura entre o que ela exige como ordem e o que ela encontra como fato. Você quer um mundo que faça sentido e encontra um mundo que não responde. Você quer que esforço gere mérito como regra e encontra acaso, timing, estrutura, contexto, humor coletivo, mudança regulatória, tecnologia e escolhas de outros que você não controla e nem participa.
Na minha leitura, esse instante separa dois tipos de liderança. A liderança infantil, que precisa que o mundo a console e fortaleça o seu ego. E a liderança adulta, que aprende a atravessar sem anestesia todas as questões que possam surgir.
Negócio é travessia. Travessia não oferece garantias. Só que a cultura corporativa da atualidade costuma se comportar como se garantias existissem. Ela promete, direta ou indiretamente, que basta seguir o manual, basta ter um discurso bonito, basta contratar gente boa, basta planejar, e tudo vai dar certo.
E a verdade é simples e dura. Não existe segurança de expectativa no mundo real. O que existe é a nossa capacidade de lidar com situações cruas sem perder a humanidade quando a humanidade é o que sustenta a travessia. É nesse ponto que o absurdo aparece no trabalho, quando o líder descobre a distância entre o discurso e a realidade. A empresa fala uma coisa e recompensa outra. Diz cliente no centro e premia volume. Diz integridade e tolera o jeitinho do “bom entregador”. Diz qualidade e acelera a pressa como se padrão fosse detalhe.
Quando esse instante chega, você não fica neutro. Você escolhe. Mesmo quando acha que não escolheu, você escolheu. Você escolhe parar. Você escolhe mentir para si. Ou você escolhe sustentar a lucidez e agir sem apelo, com responsabilidade real.
A primeira escolha diante do absurdo poder ser a de parar.
Parar nem sempre é fraqueza. Às vezes é lucidez. Pode ser vender, fechar, sair, mudar de posição, abandonar um projeto que ficou caro demais para a sua saúde, para a sua família, para o seu propósito. Existe o gesto de reconhecer que insistir virou teimosia.
O problema começa quando parar vira fuga e você não assume que é fuga. Aí vira padrão. Você vê isso no líder que, toda vez que a realidade desmonta a expectativa, troca de rota sem digerir nada. Muda de empresa, muda de setor, muda de modelo, muda de estratégia. Chama isso de reinvenção. Mas, no fundo, ele está tentando encontrar um lugar onde a realidade finalmente o trate como ele acha que merece. Ele não sustenta o vazio de garantia e se vicia em recomeços. O efeito é previsível. Muita mudança e pouca construção. Muita promessa e pouca consistência.
Existe uma forma ainda mais silenciosa de parar. É quando o líder não sai, mas desiste por dentro. Permanece no cargo e passa a operar no modo mínimo político. Evita conflito, evita decisão impopular, empurra problema, troca enfrentamento por prudência de fachada. A empresa sente. O time sente. E o mercado cobra do mesmo jeito.
A segunda escolha diante do absurdo poder ser a de mentir para si.
Aqui está o território mais comum e mais perigoso. Não é a mentira social, aquela que os outros percebem rápido. É a mentira íntima, aquela que você conta para continuar funcionando sem desmoronar. Camus chamou de suicídio filosófico a tentativa de matar a lucidez com algum salto que devolva sentido pronto. No mundo corporativo, eu vejo o mesmo mecanismo, só que com roupa de gestão.
O líder encontra o absurdo e não aguenta a sensação de estar no escuro. Então cria explicações que anestesiam. Cria narrativas que protegem. Cria teatros que sustentam. E aí começam as decisões absurdas no sentido prático, decisões que parecem lógicas no palco, mas são irracionais no chão do negócio.
O líder diz que está tudo sob controle porque tem um painel de indicadores, só que o painel está “limpo” porque o time aprendeu a maquiar dado para sobreviver. O líder diz que a cultura é forte porque tem valores escritos, só que quem manda de verdade é o incentivo, e o incentivo premia o contrário do valor. O líder diz que quer qualidade, mas acelera a pressa, tolera gambiarra e chama isso de agilidade. Depois a conta aparece em retrabalho, churn e reputação.
Quando a conta começa a chegar, entra a segunda camada da mentira. A culpa vira do mercado, do cenário, do “momento”. Qualquer coisa serve, desde que alivie a dor de olhar para dentro e assumir a incoerência. O absurdo pesa, então o líder escolhe a ilusão organizada como forma de respirar. Isso não acontece por burrice. Acontece por fragilidade diante do real e por falta de treino para sustentar lucidez em ambiente de risco.
A terceira escolha diante do absurdo pode ser a de sustentar a lucidez e agir sem apelo.
Aqui está o ponto mais raro e mais valioso. A resposta camusiana ao absurdo não é desistir e não é inventar uma história salvadora. A resposta é viver com lucidez, sem apelo, sem promessa falsa, e ainda assim agir.
No mundo do líder, isso vira postura concreta. Você aceita que não existe garantia. Aceita que o mundo pode negar recompensa mesmo quando você faz certo. Aceita que o jogo tem limite, contexto e acaso. E decide não mentir, não por virtude de vitrine, mas por sobrevivência real. Isso é revolta em Camus. Não é raiva. É recusa de se vender para a mentira.
E no mundo corporativo isso aparece quando você para de administrar aparência e começa a organizar o real. Verdade passa a ter lugar, proteção e consequência. Problema deixa de ser ameaça e vira matéria de trabalho. Quem traz problema cedo deixa de ser punido e passa a ser respeitado, porque problema escondido não desaparece, só fica mais caro. A empresa sai da maquiagem e volta para causa raiz. O incentivo deixa de trair o discurso, porque quando a empresa paga uma coisa e prega outra, ela ensina cinismo como competência.
A lucidez, quando vira método, encurta desculpas e obriga a escolher. Ela revela o que está sendo tolerado. Ela cobra renúncia. Ela recoloca o padrão acima da performance de palco. Planejamento volta ao lugar certo, ferramenta para orientar escolha, não promessa de segurança. Esperança usada para calar a verdade vira veneno. Sorte para de ser chamada de estratégia. Exceção para de ser chamada de cultura.
Eu chamo isso de liberdade prática. É a liberdade de decidir o que precisa ser decidido mesmo quando não há conforto emocional. E é essa liberdade que dá chão para atravessar.
Quando lucidez vira padrão, o ambiente fica menos teatral e mais adulto. As conversas ficam mais verdadeiras. O conflito é tratado com método e não com fofoca. O desempenho é tratado com fatos e não com impressão. O cliente é tratado com escuta e não com slogan. A estratégia vira escolha e renúncia, não coleção de frases bonitas.
Entre mentir e sustentar a lucidez existe um detalhe que muita gente ignora: método. Lucidez sem método vira bravata, e método sem lucidez vira burocracia. O líder que decide sem apelo aprende a começar pelo fato, dito em uma frase, sem adjetivo e sem justificativa. Depois ele nomeia a frase proibida, aquela que todo mundo sabe e ninguém quer dizer. Em seguida ele procura o mecanismo que mantém o problema vivo, o que está sendo tolerado, protegido ou premiado. Aí ele faz uma mudança pequena, porém irreversível, que muda a direção, porque sem dono tudo vira intenção. Sem isso, o real vence e o teatro vira rotina diária.
E aqui eu encerro com um ponto que precisa ficar claro. Cultura não é o que a empresa escreve nem o que a empresa diz quando está tudo bem. Cultura é o que a empresa sustenta quando a realidade quebra a narrativa, quando o mercado aperta, quando o caixa encurta, quando o produto falha, quando o cliente reclama, quando o time cansa. Nesse momento, as três escolhas aparecem no coletivo. A empresa pode parar por medo. Pode mentir para si e virar um teatro sofisticado ou pode sustentar a lucidez e atravessar com responsabilidade.
Agora pense: Hoje, no seu negócio, você está parando, mentindo para si ou sustentando a lucidez?



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