Quando o avatar viaja e o bebê dança, a gente entende o que está em jogo
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 8 min de leitura

Hoje, lendo no site do The New York Times, me deparei com uma daquelas cenas que parecem pequenas, quase triviais, mas carregam um diagnóstico inteiro da época em que vivemos. A matéria falava sobre influenciadores de viagem gerados por inteligência artificial, personagens sintéticos que estão sendo contratados para fazer o que antes era reservado para gente de carne, osso, com cansaço e que vive em fusos horários diferentes.
A lógica é simples, brutal e antiga. Custa menos, dá menos problema, entrega mais previsibilidade. Num mercado em que um único post pode custar cifras que fariam qualquer profissão tradicional rir e chorar ao mesmo tempo, a notícia não é exatamente que a IA chegou. A notícia é que a própria ideia de influência, como a praticamos, já tinha se separado do mundo real faz tempo. A IA só está passando a régua nesse assunto bem na frente de muitos que anda desapercebido em pleno século XXI.
O texto fazia uma curva interessante, quase um antídoto. Na mesma semana, ainda no Times, apareceu uma história sobre o modo desinibido como crianças dançam. Bebês e pequenos não dançam para serem vistos. Dançam porque estão vivos. Dançam descobrindo o corpo, como quem aprende o mundo por dentro. E aí o contraste fica escancarado. De um lado, uma economia de tela que transforma a vida em performance. Do outro, a presença absoluta de um corpo que não precisa justificar nada para ninguém.
Essa dupla imagem, o avatar que viaja e o bebê que dança, é mais do que uma curiosidade cultural. É uma metáfora precisa do dilema moral e educacional que eu estou trabalhando na minha tese de doutorado. Sem um contrapeso filosófico e educacional, a mediação algorítmica tende a trocar explicação por performance, deliberação por inferência e responsabilidade por cálculo. O resto é conversa bonita.
O avatar que viaja e a cultura que começa a preferir aparência a experiência
Vamos direto ao ponto. O influenciador de viagem sempre foi uma figura estranha. A viagem, historicamente, é outra coisa. É rito, é peregrinação, é aprendizado, é deslocamento de si. A tradição, no sentido forte da palavra, sempre soube que sair do lugar muda o sujeito, porque o mundo resiste. Você não controla o encontro com o estranho, o imprevisto, o desconforto, a diferença. Isso forma. Isso educa. A viagem real é corpo em atrito com realidade que tanto gostamos.
A economia digital fez o contrário. Transformou a viagem em imagem. A experiência deixou de ser vivida para ser mostrada. O sujeito não está mais diante do mundo. Está diante da própria projeção do mundo para um público invisível, sempre presente, sempre avaliando, se tiver dúvidas verifique as redes sociais de quem viaja e verá coisas do tipo que estou dizendo. Com isso, a viagem, que era formação, vira vitrine. Quando a vitrine vira o centro, o corpo vira acessório. E se o corpo vira acessório, por que não o trocar por um avatar perfeito, sempre bonito, sempre disponível, sempre otimizado.
A IA entra como consequência lógica, não como invasão. Ela não rouba um trabalho autêntico. Ela ocupa um espaço que já estava desenhado para ser ocupado por algo sem interioridade. O avatar é o produto ideal de um regime em que o valor não está mais nos valores vividos, no engajamento ou nas coisas que realmente fazem a diferença. O que vale agora é a aderência do post, não a densidade da experiência. O que vale agora é o alcance, não a verdade. O que vale agora é a performance, não mais a presença.
E aqui aparece um ponto filosófico que me interessa muito. Quando a cultura premia performance acima de explicação, ela desloca o eixo da moralidade. Kant diria, sem delicadeza, que isso é heteronomia disfarçada de liberdade. Você não age mais por dever, nem por princípio.
Você está agindo agora para agradar um olhar externo, e hoje esse olhar é industrial, algorítmico, estatístico. A plataforma não é um meio neutro. Ela é uma máquina de selecionar relevâncias e impor ritmos. Ela redefine o que parece importante, o que parece verdadeiro, o que parece desejável. Cassirer chamaria isso de forma simbólica. Não é só ferramenta, é um modo de organizar a experiência. Adorno e Horkheimer chamariam pelo nome antigo e desconhecido para muitos. Razão instrumental operando sobre desejos humanos, convertendo fins em meios.
Nesse cenário, o avatar que viaja é quase inevitável. Ele é a síntese de uma cultura que quer o mundo sem o risco do mundo. Quer o longe sem deslocamento real. Quer a diferença sem perturbação. Quer o novo sem transformação. E isso, na prática, é a promessa mais perigosa da técnica. Entregar efeitos sem passar pela experiência.
O bebê que dança e a lembrança do que é ser humano
A outra história, a da dança das crianças, é o contragolpe. Criança pequena dança como quem respira e quem tem em casa sabe o que estou dizendo. Não tem método, não tem plateia, não tem autocensura. Ela não está fazendo um movimento. Ela está descobrindo o movimento. E isso é muito sério. Porque nessa descoberta existe uma inteligência que a cultura digital tenta nos fazer esquecer. A inteligência do corpo como base da autonomia.
Adulto dança diferente. Adulto carrega o olhar alheio dentro de si. Adulto compara, mede, corrige, antecipa julgamento e se porta de uma forma que ele perde a cada dia o seu eu verdadeiro. Agora tem adulto que dança performando, mesmo quando não quer. E não é culpa do adulto, é da nossa condição social. Nós aprendemos cedo que tudo pode virar avaliação. A diferença é que, agora, a avaliação é constante, silenciosa e automatizada. Você não precisa de um fiscal na sala. Você precisa de um feed. O feed cumpre o papel do público e do juiz ao mesmo tempo, inclusive com indicadores que são os LIKES e comentários.
O texto apontava algo essencial. Redes sociais são performance pura. Só que uma performance etérea, desencarnada. O post é uma encenação conceitual, uma projeção de ação. E o objetivo do post não é a ação. É a reação do outro. Esse é o exato oposto do bebê que dança. O bebê dança sem o para quê ou para quem. O adulto posta sempre com um para quê ou para quem. E quando o para quem indefinido domina, a vida vira marketing de si.
Aqui eu volto ao meu ponto central. A IA acelera um movimento que já vinha acontecendo. Ela não inventa a "performatividade", ela a escala. Ela não cria a dissociação do corpo, ela a normaliza. E isso tem consequência direta na ética, porque ética não é estética de comportamento. Ética é juízo. É decisão sustentada por razões. É capacidade de explicar, de justificar, de responder.
Quando a cultura se acostuma a viver para aparecer, ela enfraquece o músculo do juízo. A pessoa não pergunta mais se isso é correto. Pergunta se isso funciona. A organização não pergunta se isso é justo. Pergunta se isso aumenta performance. E aí, quando a IA entrega resultados eficientes, o risco é a gente aceitar o resultado sem a razão. Esse é o ponto em que eu falo sem rodeio. Onde falta explicação, nasce irresponsabilidade. A crise do nosso tempo não é falta de informação. É falta de capacidade de dar conta do que se faz com a informação.
A dança das crianças lembra a origem. Antes de sermos usuários, fomos corpos. Antes de sermos perfis, fomos presença. Antes de sermos audiência, fomos encontro. E se isso parece romântico, azar. É tradicional. É antigo. É verdadeiro. O humano não começa na tela. Começa no chão quando duas pessoas fazem sexo e dão origem a vida que é fundada num útero e cresce dentro de uma barriga.
Educação corporativa na era da IA ou formamos juízo, ou treinamos obediência
É aqui que minha tese para buscar um sistema de aprendizagem que pesquiso em meu doutorado que entra com força, porque eu não estou olhando isso como moda tecnológica. Eu estou olhando como reconfiguração moral e cultural. A pergunta que me move é direta. Quando a IA se incorpora de modo generalizado ao trabalho, o que acontece com a autonomia moral, com o juízo ético e com a educação de adultos inclusive dentro das organizações. E eu parto de uma hipótese que não tem cheiro de futurismo, tem cheiro de experiência.
Sem um contrapeso filosófico-educacional, a mediação algorítmica tende a substituir explicação por performance, deliberação por inferência e responsabilidade por cálculo. Isso produz tutela técnica. Um paternalismo algorítmico que simula liberdade enquanto comprime a autoria do sujeito que somos.
A compressão da nossa autoria como sujeitos aqui não é palavra bonita. É poder real de decidir e responder por aquilo que se decidiu. Se uma empresa, liderada por sujeitos adota sistemas que recomendam, ranqueiam, filtram e decidem, e ao mesmo tempo treina pessoas apenas para operar o sistema, ela não está formando. Ela está adestrando. E talvez isso seja o grande problema da falta de engajamento e isso é gravíssimo, porque educação corporativa não é treinamento de procedimento. Educação corporativa é ecossistema formativo. Currículos, políticas, rituais de decisão, cultura de responsabilidade. É onde se forma o tipo de profissional, e, no fundo, o tipo de ser humano, que a organização produz e premia.
A tradição sempre entendeu educação como formação do caráter e do juízo. A Paidéia grega não era sobre habilidade. Era sobre medida, prudência, virtude, participação na vida comum. Kant, no coração do Iluminismo, faz o mesmo movimento. Maioridade é sair da tutela. É ter coragem de pensar por si. Só que agora a tutela não vem de um padre, de um rei ou de um chefe. Vem de um sistema que sugere o que ler, o que comprar, o que comer, em quem confiar, quem contratar, quem promover, o que priorizar. E como ele acerta muito nessa visão empobrecida da atualidade, muitos se curvam. Não por medo. Por conforto.
É por isso que, no ambiente corporativo, a discussão sobre IA não pode ficar em governança de dados, compliance de modelo, ou melhores práticas genéricas. Isso é necessário, mas é insuficiente. O núcleo é educacional e moral para uso com consciência. Como garantir que pessoas continuem capazes de justificar decisões, e não apenas executá-las. Como preservar o espaço público de razões dentro da empresa, aquilo que Habermas chamaria de terreno da argumentação, para que a organização não vire um conjunto de outputs bem otimizados e moralmente ocos.
Eu sou tradicional aqui não só de propósito. Decisão séria exige justificativa séria. Se a empresa não consegue explicar por que promoveu alguém, por que negou um crédito, por que aprovou um fornecedor, por que demitiu, por que ranqueou, por que priorizou, então ela já perdeu o eixo moral e nem percebeu. E esse tipo de perda não aparece no trimestre. Aparece na cultura. Aparece no cinismo de pessoas em qualquer posição de poder. Aparece na desresponsabilização continua que vivemos e no fim apareceu no sistema. E agora vamos dizer que foi esse tal de sistema, esse é o novo ninguém que manda e ordena. Só que com verniz matemático e científico.
Portanto, quando eu leio, no mesmo dia, sobre o avatar que viaja e sobre o bebê que dança, eu não leio como entretenimento cultural. Eu leio como sintoma e como cura possível. O avatar é o sintoma de uma vida transformada em performance eficiente, barata, escalável e vazia. O bebê é a cura na forma de lembrança. Há um tipo de inteligência que não é estatística, é viva. Há um tipo de verdade que não cabe no engajamento, cabe na experiência. Há um tipo de liberdade que não é escolha entre opções recomendadas. É capacidade de dar razão do que se faz.
No fim, a questão não é se a IA vai substituir influenciadores. A questão é se nós vamos aceitar ser substituídos naquilo que nos torna humanos, o corpo, o juízo, a responsabilidade, em troca de conveniência e aparência. Porque se a resposta for sim, não adianta reclamar quando o avatar tomar o seu lugar. Ele só estará ocupando o espaço que a nossa própria cultura esvaziou para ele.
E eu encerro com uma lembrança que ficou martelando. Somos animais em tese racionais e que dançam. Não é poesia. É definição. A vida humana não foi feita para ser só desempenho. Foi feita para ser presença, descoberta, responsabilidade e, sim, alegria.
Dançar, nesse contexto, é quase um ato de vida plena. É recusar a redução do humano a objeto de cálculo e de audiência. Só que eu vou além. Dançar não basta. É preciso voltar a explicar, deliberar e sustentar razões. É preciso voltar a formar adultos que não terceirizam o juízo para uma máquina. É isso ou a tutela técnica vira destino, e aí não tem avatar que nos salve.



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