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Quando a estratégia e a realidade se encontram com a aprendizagem o futuro se transforma por um vínculo essencial.

Recebi uma pergunta da Márcia Fernandes, usuária atenta da plataforma Saber Gestão, que toca em uma questão que é mais urgente do que parece ao perguntar: Como vincular aprendizagem à estratégia do negócio?


A resposta mais direta poderia ser esta: gerando resultado.


Mas, na prática, o desafio é justamente transformar essa ideia em método, cultura e conduta. Boa parte da educação corporativa não gera resultado consistente e isso nem sempre ocorre por negligência deliberada, mas por falta de outras vivências necessárias para quem atua nessa área.


Grande parte das vezes, o problema está na ausência de conexão entre os programas de aprendizagem e os objetivos reais da organização. A educação, para ter valor, precisa ser um dos motores do resultado, e não um adereço institucional ligado aos modismos do “fit cultural” e outros.


Para isso, é preciso maturidade, método e coragem para realizar o que se deve independente de qualquer variável. Maturidade para reconhecer que ensinar não tem fim. Método para costurar conteúdos, práticas e indicadores voltados para adultos e aplicados diretamente ao negócio. Coragem para abandonar fantasias pedagógicas que ainda dominam parte do ambiente corporativo, como a crença de que bastam boas intenções ou falas inspiradoras para provocar transformação duradoura e que a andragogia é mais do que necessária, independentemente das preferências alheias, pois o rigor é muito mais que necessário.


O ponto de partida melhor nesse processo talvez seja inverter a lógica. A aprendizagem deve nascer de um compromisso explícito com o resultado estratégico. E isso significa começar pelo fim. Antes de pensar em conteúdo, é preciso entender o que a empresa quer alcançar. Maior margem? Menor churn? Expansão de mercado? Melhora no NPS? Qualquer que seja o indicador, ele precisa existir com clareza e funcionar diretamente como critério para validar a aprendizagem que será construída.


Aristóteles pode nos ajudar aqui. Para ele, toda ação se orienta a um fim. E esse fim precisa ser realizável, concreto e eticamente válido. Quando a formação não tem esse fim definido, ela se esvazia. Torna-se uma ação sem “*telos”, que dissipa energia sem direcionamento. E não há nada mais caro a uma organização do que esforços sem norte.


Em muitos contextos, a frustração com treinamentos vem dessa dissociação. O discurso fala de resultado, mas o conteúdo não toca o que realmente importa. O planejamento estratégico segue por um caminho, e os programas de educação seguem por outro pois tudo passa a fazer parte de um grande teatro.


Surge então a sensação de movimento, mas não de progresso. É como se estivéssemos construindo uma ponte que não leva a lugar nenhum e nunca acaba.


Como Sartre nos lembra, somos o que fazemos com o que fizeram de nós. E no campo da educação corporativa, isso exige assumir que a responsabilidade pela entrega é real. O conteúdo precisa ser apenas um meio. O fim é a transformação da conduta. E o caminho passa necessariamente pelo plano tático.


É no plano tático que a aprendizagem se materializa. Ele liga o objetivo estratégico ao comportamento diário. Cada programa formativo deve nascer dessa costura. Ligando ação estratégica a habilidade, habilidade a prática, prática a indicador. Como na engenharia, é preciso desenhar cada etapa. Estabelecer metas, critérios de sucesso, sistemas de acompanhamento e formas claras de medir progresso.


Porque onde não há indicador, há narrativa vazia. E onde tudo é narrativa vazia, nada é verificável. O resultado operacional é o único critério confiável para saber se uma aprendizagem teve valor ou não. Atenção, não se trata de reduzir o humano a números, mas de reconhecer que um aprendizado que não altera a realidade concreta provavelmente não se sustenta.


Se o foco é melhorar escuta, isso precisa impactar algo. Pode ser o NPS, o índice de retrabalho, a fluidez de reuniões, o tempo de resolução de conflitos. O impacto precisa ser visível, tangível, discutível além de auditado. Caso contrário, a formação é apenas retórica e vazia, como já escrevi.

É nesse ponto que o vínculo entre os elementos da estratégia se torna incontornável. O plano estratégico, o plano tático, os programas de aprendizagem e os indicadores precisam formar um sistema articulado. Um circuito vivo que retroalimenta a organização e alinha as condutas aos compromissos assumidos.


Chamamos isso de vínculo. Mas não é apenas uma conexão técnica. É um alinhamento de propósito. Aristóteles o chamaria de causa final. Sartre, de projeto. Em ambos os casos, é o que impede que as partes caminhem em direções opostas. Quando a aprendizagem não está vinculada ao projeto da empresa, ela vira enfeite para o palco do teatro. Quando está no ponto certo, ela vira força motriz.


Compartilho aqui uma experiência concreta. Trabalhamos com uma empresa que queria aumentar a margem de contribuição por contrato. A meta era clara: passar de doze para dezoito por cento em seis meses. Começamos perguntando o que sustentava essa meta na prática. Chegamos a três eixos: negociação, controle de escopo e gestão de horas.


Com base nesses três pontos, desenhamos um programa de aprendizagem objetivo. Pouco conteúdo teórico. Muito exercício prático, simulação de situações reais, roteiros de decisão e métricas semanais de desempenho. Em quatro meses, a margem havia ultrapassado a meta. Isso não foi acaso. Foi consequência de um programa alinhado desde o início ao fim esperado.


E essa é a chave. Começar pelo fim. Perguntar sempre: qual é o impacto prático daquilo que vamos ensinar? Como essa aprendizagem se traduz em mudança de postura, de resultado, de percepção do cliente? Quando a educação começa a responder a essas perguntas, ela deixa de ser uma atividade e passa a ser uma estrutura. Parte da cultura, parte da entrega.


O erro comum é fragmentar. Tratar educação como um setor, estratégia como outro, operação como mais um. Mas a empresa não vive em pedaços. Ela vive como sistema. E a aprendizagem, se quiser ser relevante, precisa ser parte desse sistema, e não um apêndice dele.


Aprender, nesse contexto, é um ato existencial. É assumir a responsabilidade por modificar o que somos diante da realidade que nos é dada. E isso exige disposição, consistência e um grau alto de vigilância. Não dá para educar e ignorar o impacto. Não dá para formar e não medir. Não dá para querer transformação e evitar desconforto.


Aprendizagem que se vincula à estratégia não é luxo. É coerência. É maturidade. É, no fundo, a única forma de fazer valer o investimento em desenvolvimento humano dentro das organizações, caso contrário, seremos apenas um número a ser eliminado.


Então, para quem acompanha o Saber Gestão e as minhas respostas por aqui sobre o tema, a provocação final é simples. Vocês já revisaram seus programas de aprendizagem à luz dos objetivos estratégicos?


Já mapearam como o plano tático da empresa conversa com os conteúdos formativos?


Já estabeleceram indicadores claros que revelam se o que foi aprendido se transformou em entrega?


Se essas perguntas ainda não têm respostas, talvez seja hora de refazer o caminho. Porque só existe aprendizagem legítima quando ela gera impacto legítimo.


E como sempre, que essa reflexão seja um ponto de partida. Nunca um ponto final nessa busca eterna da educação corporativa.


Keine Alves 

Líder educador e pesquisador


 *Telos é um conceito da filosofia grega, especialmente de Aristóteles, que significa fim, propósito ou objetivo último de algo.


Para Aristóteles, tudo na natureza e na ação humana tem um telos, ou seja, uma finalidade intrínseca que orienta seu desenvolvimento e sua realização.


Uma faca, por exemplo, tem como telos cortar. Uma ação ética tem como telos o bem. No caso da aprendizagem, o telos seria a transformação concreta que ela busca gerar seu impacto final na realidade.


Sem telos, algo pode até existir, mas não tem direção nem sentido pleno.


 
 
 

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