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Por que gostar do que faz é mais importante do que fazer o que gosta?

Há pouco tempo, postei no LinkedIn uma pergunta que tem provocado as pessoas do meu convívio a uma boa reflexão: Fazer o que gosta ou gostar do que faz?”


Essa questão tem me levado a refletir profundamente sobre como encaramos o trabalho e as escolhas que moldam nossas trajetórias profissionais.


Nos últimos anos, proliferaram narrativas que exaltam a ideia de "fazer o que você gosta". Frases como "siga sua paixão e encontre a sua vocação" ou "transforme o que você gosta em trabalho" se tornaram quase mantras em nosso tempo.


No entanto, ao refletir sobre a vida profissional durante este período de recesso, é possível perceber que esse contexto, embora bem-intencionado, pode ser mais problemático do que solucionador.


Talvez o caminho para uma vida verdadeiramente satisfatória não esteja em buscar incessantemente o que gostamos fazer, mas em aprender a gostar do que precisa ser feito e trabalhar com excelência.


Nos últimos tempos, tenho encontrado muitas pessoas obcecadas por buscar oportunidades melhores. Não há problema algum em aspirar a algo maior, mas, ao ouvir suas histórias, percebo que frequentemente esses objetivos não passam de sonhos alimentados por ilusões como essa.


Esses sonhos são construídos sobre expectativas irreais ou ideais que não se conectam com a realidade do trabalho ou com o que é necessário para alcançá-los.


Essa reflexão encontra ressonância no pensamento de um filósofo que gosto muito que é Jean-Paul Sartre, um existencialista que defendia que o ser humano é condenado a ser livre e deve criar sentido para sua existência através de suas escolhas.


No contexto do trabalho, isso significa que não há um destino predefinido ou uma paixão ideal a ser seguida, cabe a nós construirmos significado no que fazemos, independentemente de circunstâncias externas.


É hora de reavaliar nossas expectativas e transformar nossa relação com o trabalho. Em vez de procurar o "trabalho certo", precisamos nos dedicar a "trabalhar certo".


Este processo não é mágico e nem romântico, ele exige compromisso, disciplina e uma mentalidade realista que prioriza o desenvolvimento pessoal e a entrega de valor.


A ilusão de se fazer o que gosta


A ideia de seguir nossa paixão é sedutora. Ela sugere que existe um trabalho perfeito esperando por nós, algo que traga alegria constante e nos permita escapar das dificuldades e frustrações do dia a dia.


No entanto, essa visão é, em muitos casos, uma fantasia. Primeiro, porque nossa paixão é volátil como as reservas cambiais, o que amamos hoje pode deixar de nos satisfazer em pouco tempo.


Além disso, transformar algo que amamos em trabalho muitas vezes elimina a magia que inicialmente nos atraía.


Sartre inclusive argumentava que a existência precede a essência, sugerindo que somos responsáveis por definir quem somos por meio de nossas ações. Isso implica que a paixão não é algo que descobrimos externamente, mas algo que construímos ativamente. Quando esperamos que o trabalho perfeito nos encontre, estamos abdicando da responsabilidade de criar sentido no que fazemos.


Nietzsche, um outro filósofo de cabeceira que tenho também oferece um olhar poderoso sobre essa questão por meio de sua ideia do senhor e do escravo. Segundo ele, é preciso superar a mentalidade de vítima e assumir uma posição ativa na construção da própria vida.


No contexto profissional, isso significa abandonar a ilusão de que existe um trabalho ideal nos esperando e, em vez disso, moldar nossa realidade através do esforço e da determinação.


Por fim, há um problema prático aqui para ser revelado e resolver de vez essa questão da paixão: nem todos têm o privilégio de escolher seus caminhos baseando-se apenas no que gosta.


Para a maioria das pessoas, as escolhas profissionais são moldadas por necessidades financeiras e outras circunstâncias de ordem prática. Nessas situações, o ideal não é buscar o trabalho idealizado, mas encontrar significado no que se faz.


A Importância de aprender a gostar do que precisa ser feito


Em vez de perseguir incessantemente o que gosta, aprender a gostar do que precisa ser feito é um caminho mais realista e gratificante. Esse conceito se baseia em uma ideia simples: a satisfação no trabalho é frequentemente um efeito colateral de nos tornarmos bons e confiáveis pelo impacto positivo que geramos.


Quando nos dedicamos a dominar uma habilidade ou a gerar resultados excepcionais, é natural que desenvolvamos orgulho e entusiasmo pelo que fazemos.


Essa abordagem também é mais inclusiva, pois reconhece que nem sempre escolhemos nosso trabalho, mas podemos sempre escolher como nos relacionamos com ele.


Encarar nossas tarefas como oportunidades de crescimento e desenvolvimento nos permite encontrar significado mesmo em atividades aparentemente rotineiras ou desafiadoras.


Realismo, envolvimento e significado


Trabalhar certo exige uma dose de realismo. É importante reconhecer que nenhum trabalho é isento de desafios, monotonia ou frustrações. Não devemos evitar esses momentos, mas enfrentá-los com resiliência e criatividade.


Aprender a navegar pelas dificuldades e encontrar significado mesmo em tarefas menos glamorosas é o que diferencia os profissionais bem-sucedidos e realizados.


Além disso, trabalhar certo requer envolvimento. Isso significa estar presente e comprometido com o que se faz, mesmo que não seja sua atividade favorita.


Quando mergulhamos de cabeça em nossas tarefas, aumentamos nossas chances de descobrir aspectos gratificantes e de desenvolver paixão pelo processo de aprendizado e desenvolvimento.


Para concluir...


A busca por fazer o que realmente gostamos pode ser um objetivo inspirador, mas é, muitas vezes, irrealista ou contraproducente. Em vez disso, devemos nos concentrar em aprender a gostar do que precisa ser feito e em desenvolver nossas habilidades com compromisso e excelência.


Trabalhar certo é um caminho mais seguro e sustentável para construir uma vida profissional significativa.


Penso que ao abandonarmos a ideia de que existe um trabalho ideal, abrimos espaço para encontrar satisfação no trabalho que já temos ou nas oportunidades que criamos.


Quando compreendemos que a paixão é consequência de nos tornarmos excepcionais naquilo que fazemos, alcançamos não apenas o reconhecimento genuíno, mas também a verdadeira realização.


Portanto, ao invés de buscar o trabalho certo, reflita sobre como você pode trabalhar certo.


Pergunte-se: como e onde posso melhorar? Como e onde posso agregar mais valor? Como e onde posso transformar o que faço em algo que impacte positivamente as pessoas ao meu redor?


Essas perguntas, e não a busca incessante por paixão, são o verdadeiro caminho para uma vida profissional plena e bem vivida.

 


Keine Alves

Líder educador e pesquisador


 
 
 

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