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O que faz uma empresa parar de aprender?

há 6 dias
4 min de leitura

O plano de ação foi concluído, os responsáveis entregaram e os prazos foram cumpridos. Na reunião, tudo parece caminhar bem. Ainda assim, quando voltamos à operação, encontramos os mesmos atrasos, as mesmas falhas e a mesma dependência de alguém que precisa intervir para fazer o trabalho acontecer. Diante disso, tenho insistido numa pergunta com líderes e liderados.


A sua empresa melhorou ou somente encerrou mais uma lista de atividades?


Essa distinção importa porque podemos movimentar muitas pessoas sem ampliar a capacidade da empresa de produzir os resultados que planejou. O treinamento acontece, o procedimento é revisado, o relatório ganha novos campos, mas a forma de compreender os problemas e de agir sobre eles permanece praticamente igual, ou seja, a execução terminou e o aprendizado que deu origem ao plano ainda precisa acontecer na prática operacional.


Penso que uma cultura de resultado exige a aprendizagem como pedra fundamental e isso começa pelo inconformismo diante dessa repetição. Precisamos deixar de tratar como inevitável aquilo que já deveria ter sido compreendido e superado. Quando alguém diz que determinado problema sempre aconteceu, vale perguntar o que foi feito para conhecer suas causas e quais condições continuam permitindo que ele se repita.


Mas essas perguntas devem ultrapassar o que eu chamo de ambiente do mais do mesmo, que se resume a geração de um grande passado pela frente, ele deve alcançar a consciência e a competência das pessoas envolvidas e é aqui que conectamos a dimensão humana do trabalho que é muitas vezes negligenciada por falta de competência de líder.


A forma com que isso se revela é pelo inconformismo humano que precisa ganhar direção. Ser proativo exige perceber sinais, investigar situações e desenvolver condições para agir antes que a reclamação do cliente, a perda financeira ou o fechamento abaixo da meta imponham uma resposta. Para isso, as pessoas precisam compreender os resultados esperados e reconhecer de que maneira seu trabalho contribui para alcançá-los.


Há, porém, um obstáculo que costuma aparecer antes de qualquer análise. As pessoas na empresa precisam permitir que sua realidade seja conhecida. Se comunicar uma falha ela não deve ser compreendida como uma ameaça a posição de quem a revela, o silêncio não deve aparecer como uma escolha razoável, pois o problema continuará existindo, mas deixará de aparecer nos registros e nas conversas que orientam as decisões.


Pergunto a você, qual problema da sua operação que todos conhecem, mas ninguém registra? A resposta pode revelar mais sobre a cultura atual da empresa do que muitas pesquisas internas realizadas pelos falsos especialistas presentes no time atual.


Somente um especialista sistêmico sabe agir além de perceber o medo que impede o devido andamento, pois isso faz com a gestão não perca justamente a informação necessária para agir. Pois sabemos que não adianta ficar cobrando as pessoas de uma capacidade de antecipação que ela própria ajudou a comprometer.


Vale comentar que abrir espaço para falar também exige preparo para compreender e realizar. As pessoas precisam desenvolver conhecimentos, habilidades e comportamentos compatíveis com os desafios que receberam. Precisam aprender a analisar causas, avaliar alternativas, decidir e verificar os efeitos de suas decisões. Boa vontade, isoladamente, não oferece esse repertório.


Ao mesmo tempo, essa competência precisa encontrar condições para ser exercida. Informação disponível, recursos adequados, processos coerentes e autonomia compatível com a responsabilidade fazem parte do trabalho. Cobrar iniciativa de quem depende de autorização para qualquer ajuste produz uma contradição. A cultura se revela nesse encontro entre o que as pessoas conseguem realizar e aquilo que o sistema permite.


Por isso, melhorar exige técnica e disciplina. Antes de propor uma ação, precisamos compreender o problema, conhecer sua dimensão e investigar suas causas. Depois, definir o efeito esperado e como ele será acompanhado. Se a intenção era reduzir retrabalho, concluir um treinamento comprova que uma atividade ocorreu. A eficácia precisa aparecer na redução das falhas.


Mesmo essa redução merece análise. Ela se sustenta ao longo do tempo? Aconteceu por causa da intervenção ou porque o volume de trabalho diminuiu? O problema foi resolvido ou transferido para outra área? Medir o efeito exige comparar situações e considerar o contexto. Sem esse cuidado, podemos comemorar uma melhora que os dados não sustentam.


Também precisamos escolher o que melhorar. Quando cada área cria iniciativas sem uma direção comum, surgem esforços duplicados, disputas por recursos e soluções que favorecem um indicador enquanto prejudicam outro. As prioridades precisam responder aos objetivos estratégicos, ter responsáveis e ser acompanhadas por critérios claros. Essa governança permite que a aprendizagem contribua para o desempenho da empresa inteira.


A competência de líder precisa nos capacitar para conduzir esse desenvolvimento no cotidiano. Uma decisão, uma entrega malsucedida e uma dificuldade recorrente oferecem oportunidades para ampliar a compreensão da equipe. Isso requer tempo para investigar, experimentar, avaliar e compartilhar o que foi aprendido. Quando a experiência fica restrita a uma pessoa, a empresa continua dependente dela para resolver o próximo problema. A experiência precisa deixar referências que ajudem a equipe a decidir melhor.


O aprendizado ganha consistência quando passa a orientar a prática de outras pessoas e permanece disponível para situações futuras. É nesse ponto que desenvolver competências amplia a capacidade de realizar. A equipe passa a compreender melhor o que precisa fazer, por que precisa fazer e como avaliar se está contribuindo para os resultados planejados.


Essa discussão encontra um bom paralelo na provocação do Chartered Quality Institute que li em 2025 sobre revisitar os princípios da qualidade. O artigo escrito por Vince Desmond aproxima melhoria de inovação e amplia o olhar da liderança para a cultura e a capacidade de toda a empresa. Penso que esse movimento exige exatamente o ato de examinar o quanto nossas práticas permitem descobrir problemas e construir respostas melhores. 


Inclusive eu recomendo a leitura que está no link: https://knowledge.quality.org/blog/quality-principles-time-change


No fim, a pergunta que precisa permanecer sobre a mesa é o que nos tornamos capazes de realizar depois de tudo o que fizemos. Enquanto essa capacidade não evoluir, as pessoas na empresa continuaram usando o futuro para resolver os problemas que já deveriam ter sido aprendido a superar.


Vou aprofundar essa discussão na Semana da Qualidade que estamos organizando com a Forlogic. 


Nela vou conversar mais sobre como criar condições para que as pessoas desenvolvam suas competências, antecipem problemas e ampliem a capacidade da empresa de alcançar os resultados que planejou.


Se inscreva no link: https://semanadaqualidade.com.br


Keine Alves - Líder educador, pesquisador e filósofo aplicado aos negócios.

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