O medo como elemento fortalecedor do "Teatro Corporativo"
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 10 min de leitura

O medo é um sentimento universal e inevitável, inerente à condição humana. Ele surge como resultado de um sistema de proteção humana que também pode estar especialmente ligado à dúvida e ao desconhecimento sobre o que nos cerca e, mais profundamente, sobre nós mesmos.
No contexto do teatro corporativo, o medo pode se manifestar de várias formas, influenciando comportamentos, decisões e as relações de trabalho. Neste artigo, vou explorar como o medo, ao invés de ser um fator paralisante, pode ser ajustado pela racionalização e utilizado como um elemento fortalecedor dentro das empresas, promovendo autoconhecimento, crescimento pessoal e profissional, e um ambiente de trabalho muito mais coeso e produtivo.
Seguindo adiante, o medo é frequentemente visto como um produto do desconhecimento humano. A incerteza sobre o futuro e a falta de conhecimento, compreensão das situações presentes e outros pontos subjetivos podem gerar insegurança e medo.
No ambiente corporativo, essa dinâmica é amplificada pela constante pressão por resultados que nos cerca, a necessidade de adaptação rápida e a incessante demanda por inovação e uma atuação coerente e consistente. Sabemos que trabalhar sob essas condições significa enfrentar desafios e mudanças contínuas, o que pode resultar em um estado persistente de ansiedade, pois notamos mesmo que indiretamente a nossa falta de competência e consistência diante do dia a dia de trabalho.
No entanto, é crucial reconhecer que, ao invés do medo ser bom, é a racionalização que opera através das nossas faculdades intelectuais que nos permite ajustar o medo e utilizar seus fatores geradores como molas propulsoras e pouco falamos disso.
Importante deixar claro que essa racionalização nos empurra a sair da zona de conforto, instigando-nos a buscar conhecimento e a desenvolver novas habilidades e isto está intrinsicamente ligado à nossa forma de viver.
No fim, se racionalizarmos o processo do medo do desconhecido pode estimular no final do processo a curiosidade e a vontade de aprender, levando-nos a explorar novos territórios e a expandir nossas capacidades.
Em vez de paralisar, a transformação do medo pela racionalização pode se tornar um catalisador para o crescimento pessoal e profissional, mas precisamos lembrar que esse se dá pela abordagem madura e racional.
Ao encarar o medo de forma construtiva, podemos ajustá-lo em uma ferramenta de autodesenvolvimento e impulso e isso envolve o cultivo de um ambiente de trabalho onde o aprendizado contínuo é valorizado junto com a inovação e a ousadia, permitindo que as pessoas se sintam seguras para experimentar, crescer e florescer.
A transformação do medo em um aliado no mundo do trabalho é uma estratégia essencial para a empresas que pretendem construir um futuro mais adaptável e dinâmico, eliminando assim as barreiras criadas e reforçadas por aqueles que não sabem que não sabem e tornam o nosso processo de desenvolvimento difícil e mais que desafiador.
No mundo corporativo, o medo pode se manifestar de diversas formas: medo de falhar, medo de não ser aceito, medo de mudanças, medo de se comunicar e se expor, entre outros.
Essas manifestações de medo são frequentemente vistas como fraquezas pelo ambiente hostil construído nas empresas, parte inclusive de uma contracultura que alimenta os teatros corporativos onde todos encenam e se enganam constantemente, mas a boa notícia é que isso tudo pode ser racionalizado e ajustadas em forças.
Por exemplo, o medo de falhar pode levar a um planejamento mais cuidadoso e a uma preparação mais rigorosa desde que racionalizado. O medo de não ser aceito pode incentivar o desenvolvimento de habilidades interpessoais e de trabalho em equipe. O medo da mudança pode ser um catalisador para a inovação e a adaptabilidade.
Contudo, no ambiente corporativo, o medo muitas vezes é exacerbado pelos diversos atores que fazem parte dos "teatros" compondo assim a tal contracultura empresarial, aquela que finge que está tudo certo, mas olhando de perto não está e o pior, ninguém tem coragem de apontar... Você já presenciou isso? Seja honesto com você mesmo, não tem ninguém te olhando...
O teatro da pressão onde o medo é usado é um cenário onde os colaboradores estão constantemente sob intensa pressão para alcançar metas e resultados e sofrendo ameaças diretas e indiretamente além do bullying pela falta de resultado.
Pessoas medrosas e incapazes começam a se colocar num pedestal para apontar o outro e não assumir a sua incapacidade, afinal, isso é visto principalmente em empresa familiar onde pessoas incapazes são tidas como amigos do rei e fogem da comparação e da verdade nua e crua da sua falta de competência e isso acontece por medo.
Esse tipo de ambiente cria um ciclo de estresse e ansiedade, dificultando a capacidade de pensar de forma criativa e inovadora e o pior, minando o nosso simples “jeitão de ser”, abrindo espaço para que a máscara da perfeição entre em cena.
Além disso, temos junto com esse teatro a manipulação, que é caracterizado por práticas onde o medo volta a ser é utilizado como uma ferramenta de controle, manipulando comportamentos e decisões, afinal quem nunca ouviu: se eu fosse você não faria isso...
Essa abordagem pode levar a um clima de desconfiança e insegurança, minando a moral e a produtividade dos colaboradores. Temos medo porque no fundo temos responsabilidade e todos querem acertar, e para isso projetamos o futuro, mas o problema verdadeiro não é a falta de certezas que abala o nosso espaço de controle e sim as possibilidades macabras que são nutridas em nossas possibilidades.
Este sentimento vendo sendo fortemente enaltecido e usado no ambiente corporativo, onde as mudanças são constantes e as expectativas são altas e a falta de suporte e apoio para realização são cada vez menor.
A incerteza sobre o que está por vir de forma ruim surge e pode gerar um estado de constante ansiedade e até de paralisia. No entanto, é possível transformar tudo isso em boas oportunidades de crescimento, de que forma? Racionalizando...
Ao invés de sermos paralisados pelo medo, podemos usá-lo como uma ferramenta para nos prepararmos melhor para o futuro. Isso envolve desenvolver a nossa competência e capacidade de adaptação, resiliência e a abertura para novas experiências e aprendizados.
Transformar sensação ruins em aliados, significa encarar o desconhecido como uma chance para aprender e evoluir. As empresas devem promover uma cultura de aprendizado contínuo, apoio e inovação, onde os erros são vistos como oportunidades de crescimento e não como falhas a serem punidas.
Esse ambiente certamente pode permitir que os colaboradores se sintam seguros para experimentar e explorar novas ideias, fomentando cada vez mais um espírito de progressos constante que gere inovação e cultive a criatividade coletiva.
Ao integrar essas perspectivas, é possível sim a criação de um ambiente corporativo mais saudável e produtivo. Agora sabemos que o medo, quando ajustado de maneira construtiva, pode ser um catalisador para o desenvolvimento pessoal e profissional.
Portanto, promover uma cultura de transparência, respeito e aprendizado contínuo é essencial para transformar o medo em um elemento fortalecedor dentro das empresas e com isso o teatro corporativo que frequentemente utiliza o medo como uma ferramenta para controlar e manipular os colaboradores passa a ser enfraquecido.
Mesmo com tudo isso e diversas literaturas sobre o tema de forma indireta, muitos profissionais ainda preferem utilizar a abordagem do medo, embora possa parecer eficaz a curto prazo, é insustentável e prejudicial a longo prazo.
O medo constante mina a moral, reduz a produtividade e impede a inovação. Além disso, um ambiente de trabalho dominado pelo medo gera um clima de desconfiança e insegurança, onde os colaboradores não se sentem valorizados ou respeitados, levando pôr fim a um clima ruim e de fácil deterioração.
Vale comentar também que a abordagem do teatro corporativo, ao nutrir o medo, cria um ambiente onde a competitividade excessiva e a falta de colaboração são comuns. Isso não só afeta a saúde mental e emocional dos colaboradores, mas também prejudica a capacidade da empresa de se adaptar às mudanças.
A crítica a essa postura é essencial para promover uma mudança cultural dentro das organizações, onde o foco deve ser na colaboração, na transparência e no respeito mútuo.
Dito isso, transformar o medo de forma racional é uma excelente estratégia, mas primeiramente, precisamos promover uma cultura de transparência e comunicação aberta dentro das empresas.
Em grupos de empresas que conduzo, uma das primeiras coisas que abordo é o assunto comunicação, pois isso ajuda a reduzir o desconhecimento e a incerteza, que são as principais fontes de medo.
Além disso, oferecer oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional em conjunto e concomitante é superimportante, pois essas podem ajudar os colaboradores a se sentirem mais preparados e confiantes para enfrentar os desafios.
Por fim, é crucial incentivar o autoconhecimento e a autorreflexão, permitindo que cada indivíduo compreenda melhor suas próprias forças e fraquezas de forma madura.
Contudo, precisamos dar um destaque para o autoconhecimento, que é uma ferramenta poderosa na transformação do medo em função da base da racionalização. Conhecer a si mesmo permite identificar as fontes de medo e trabalhar para superá-las.
No ambiente corporativo, isso pode se traduzir em uma maior confiança nas próprias habilidades e uma maior disposição para enfrentar desafios, mesmo quando não se tem todas as competências instaladas.
Além disso, o autoconhecimento promove a autenticidade e a integridade, valores essenciais para um ambiente de trabalho saudável e produtivo e podemos destacar diversas práticas que podem ser adotadas para promover o autoconhecimento no ambiente de trabalho.
Sessões de comunicação aberta, de partilha de experiências, por exemplo, podem ajudar os colaboradores a identificarem e desenvolver suas habilidades e competências em equipe, além de aumentar o grau do relacionamento interpessoal.
Além disso, a criação de espaços seguros para a expressão de sentimentos e preocupações pode contribuir para um maior autoconhecimento e uma melhor gestão do medo.
Sabemos que ser verdadeiro consigo mesmo não é fácil pelo mundo que nos foi criado, mas sabemos também que viver nossas virtudes à luz de nossos valores é uma estratégia fundamental para transformar o medo em um elemento fortalecedor.
Isso envolve alinhar as ações e decisões diárias com os valores pessoais e empresariais e isso precisa acontecer no ambiente corporativo, pois essa prática pode criar uma cultura de integridade e respeito mútuo, onde os colaboradores se sentem valorizados e motivados a dar o seu melhor.
Importante ressaltar que a cultura organizacional também desempenha um papel crucial na gestão do medo. Uma cultura que valoriza a transparência, a colaboração e o respeito mútuo podem ajudar muito a reduzir o medo e a insegurança entre os colaboradores.
Além disso, promover uma cultura de aprendizado contínuo e inovação pode encorajar os colaboradores a verem os desafios e as mudanças como oportunidades de crescimento, ao invés de ameaças.
Henry Mintzberg, um renomado teórico da gestão, enfatiza a importância de humanizar o ambiente de trabalho. Ele argumenta que a gestão eficaz deve focar não apenas em processos e resultados, mas também nas pessoas que fazem parte da organização.
Mintzberg como eu, critica a visão mecanicista das empresas e defende uma abordagem mais orgânica e integrada. Segundo ele, o medo no ambiente de trabalho pode ser reduzido através da construção de uma cultura organizacional que valorize a empatia, a colaboração e o respeito mútuo.
Penso que ao promovermos um ambiente onde os colaboradores se sentem seguros e valorizados, é possível ajustar o medo em um catalisador para o crescimento e a inovação. Mintzberg também aponta que a liderança deve ser orientada por uma visão sistêmica e inclusiva, onde as decisões são tomadas com base na participação e no engajamento de todos os membros da empresa.
Isso realmente cria um ambiente de confiança e segurança, reduzindo o medo e promovendo a colaboração e a inovação. A gestão com humanidade proposta por Mintzberg é essencial para ajustar o medo em uma força positiva dentro das organizações.
Já o meu filósofo de cabeceira, Immanuel Kant, inclusive um dos mais influentes filósofos da ética, propôs que as ações humanas devem ser guiadas por princípios morais universais.
No contexto corporativo, isso significa que as decisões e ações devem ser orientadas por valores como integridade, honestidade e respeito. Ao aplicar esses princípios éticos, é possível criar um ambiente de trabalho onde o medo não é alimentado pela incerteza e desconfiança, mas sim superado pela confiança e pelo compromisso com princípios sólidos.
Essa abordagem também promove um senso de propósito e pertencimento entre os colaboradores, reduzindo o medo e fomentando um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo e Kant também destaca a importância da autonomia e da responsabilidade individual.
No ambiente corporativo, isso significa que os colaboradores devem ser encorajados a tomar decisões éticas e a agir de acordo com seus valores pessoais e profissionais. Isso não só reduz o medo, mas também promove um senso de responsabilidade e comprometimento com os objetivos da empresa.
Os princípios éticos kantianos são uma base sólida para criar um ambiente de trabalho ético e sustentável e para fechar Jürgen Kaube, um destacado pensador contemporâneo, oferece uma visão crítica que consigo claramente encaixar na tese do teatro corporativo.
Ele argumenta que muitas práticas empresariais modernas são guiadas por um desejo de performance e aparências, onde o medo é utilizado como uma ferramenta de controle. Kaube critica inclusive a superficialidade dessas práticas e defende uma abordagem mais autêntica e substancial.
Segundo ele, para superar o medo no ambiente de trabalho, é necessário promover uma cultura de autenticidade e transparência, onde as ações e decisões são guiadas por valores reais e não apenas por uma busca incessante por resultados.
Essa crítica é essencial para compreender como o teatro corporativo pode ser transformado para promover um ambiente de trabalho mais ético e sustentável. Kaube também destaca a importância de uma liderança autêntica e transparente.
Líderes que são honestos e abertos sobre suas próprias vulnerabilidades e desafios criam um ambiente de confiança e segurança. Isso reduz o medo e incentiva os colaboradores a serem mais abertos e colaborativos. A crítica de Kaube que direciono ao teatro corporativo é um chamado para uma abordagem mais ética e autêntica na gestão das empresas.
Portanto a ética das virtudes, apoiada por pensadores contemporâneos, oferece sim uma saída para essa situação. Ao invés de nutrir o medo, as pessoas na empresa devem promover valores como integridade, respeito, empatia e colaboração.
Isso envolve criar políticas e práticas que reflitam esses valores e que incentivem os colaboradores a agirem de acordo com princípios éticos sólidos. Além disso, é importante ressaltar para não esquecer a cultura de aprendizado contínuo, onde os erros são vistos como oportunidades de crescimento e não como falhas a serem punidas.
No fim, implementar a ética das virtudes no ambiente corporativo significa criar um ambiente onde os colaboradores se sentem seguros para expressar suas opiniões e preocupações.
Isso promove um senso de pertencimento e comprometimento com os objetivos da empresa.
Além disso, a ética das virtudes incentiva uma liderança que é orientada por princípios éticos sólidos, criando um ambiente de confiança e respeito mútuo.
Já pensou nisso? Se não... chegou a hora!
Líder educador e pesquisador



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