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Mais de quatro anos sem IPO e uma rampa para as médias empresas começa a ser discutida, pois em 2026 o ano será de boas, mas de difíceis oportunidades

Em 2025 eu escrevi que 2026 não ia ser fácil, porque algumas tendências já apontavam para um ambiente mais seletivo. Vou deixar aqui o link daquele texto. 



Não é para fazer o famoso “eu avisei”. É somente para usar a premissa como régua nesse primeiro artigo. Ano difícil não é opinião, é mecanismo. Ele encurta a paciência do capital, pune improviso e encarece o risco e precisamos falar dessas consequências abertamente.


O dado que organiza esse artigo é objetivo. O Brasil está há mais de quatro anos sem um ciclo real de IPO na B3. O marco mais aceito como último IPO daquele período é a Vittia, concluído em 2 de setembro de 2021, como a própria B3 registrou, esse intervalo não é só um jejum estatístico. Ele sinaliza que a engrenagem do equity como financiamento de crescimento ficou travada. Quando isso acontece, o capital não some. Ele troca de trilho, vai para dívida, vai para operações privadas, vai para consolidação via M&A, vai para fora, ou fica parado esperando previsibilidade.


Quem para nesse ponto transforma o dado em reclamação. Só que 2026 fica mais relevante justamente por ser difícil. Em ambiente tenso, com guerras, ruído geopolítico e capital seletivo, o mercado deixa de recompensar narrativa e volta a cobrar estrutura. Não é o ano do discurso bem embalado, é um ano em que método vira critério de sobrevivência e de avanço no mundo dos negócios, em especial no mercado de capitais.


E é aqui que entra o paradoxo que pouca gente está olhando com rigor. Mesmo com a seca de IPOs, o país começou a desenhar uma rampa institucional para companhias menores e, na prática, para um universo de empresas médias que precisam de um caminho proporcional. A CVM publicou a Resolução 232 em 3 de julho de 2025 a qual veio sendo ajustada e instituiu o regime FÁCIL, um arranjo pensado para facilitar o acesso a capital e incentivar listagens, com regras aplicáveis a Companhias de Menor Porte. O regime parte de um princípio antigo e correto. Reduzir fricção de forma proporcional, que pode ampliar participação, desde que não se destrua a substância que sustenta a confiança.


Esse detalhe importa. O FÁCIL simplifica forma, mas não transforma empresa frágil em empresa confiável. A CVM descreve um conjunto de ajustes e dispensas que alteram custo de observância, como o uso de formulários específicos e mudanças no pacote informacional, mas o regime continua sendo um ambiente regulado, com critérios e obrigações que precisamos aprender a lidar. A B3 também comunicou publicamente que está acelerando a inclusão de companhias de menor porte para alavancar o mercado e lançou um guia com regras, tipos de oferta e passo a passo para listagem no Regime FÁCIL. Isso é sinal de operacionalização, não apenas de intenção.


O calendário reforça que há arquitetura de verdade sendo colocada em pé. A CVM também com todo o seu desafio interno publicou a Resolução 236 em 9 de dezembro de 2025, alterando pontos do regime e adiou sua vigência para 16 de março de 2026. O adiamento, longe de enfraquecer o tema, indica maturação e necessidade de adaptação do ecossistema para as empresas. Regra séria não nasce pronta para todos no dia seguinte. Ela precisa encaixar em rotinas, sistemas, intermediários e emissores.


Ao mesmo tempo, o pipeline não evaporou. Em dezembro de 2025, uma diretora da B3 afirmou que 54 companhias já estavam com documentação organizada para abertura de capital e que existe um universo muito maior com potencial de listagem. Esse dado é um termômetro super importante para olharmos. Ele mostra que não falta empresa. Falta janela, falta preparo e, principalmente confiança.


E confiança que falo aqui não é um sentimento. Confiança é um requisito institucional que deve ser implementado através de uma série de elementos que é inevitável, preciso trazer Daron Acemoglu e James A. Robinson com a seriedade que eles exigem. O Nobel Prize em Ciências Econômicas de 2024 foi concedido a Acemoglu, Simon Johnson e Robinson por estudos sobre como instituições são formadas e afetam prosperidade.


A tese central é conhecida por qualquer leitor atento de economia institucional. Prosperidade depende dessa confiança que é sustentada por regras, enforcement, previsibilidade e contenção do oportunismo. Quando instituições falham, o custo do risco sobe e o investimento recua. No mercado de capitais, isso aparece de forma direta. O investidor não precifica apenas projeção de receita. Ele precifica qualidade do ambiente onde aquele fluxo de caixa será reportado, auditado, cobrado e fiscalizado.


Esse ponto conecta diversas oportunidades no Brasil a 2026 sem precisar de frases motivacionais. Uma seca longa de IPO é, em parte, macroeconomia e custo de capital. Mas também é preço de institucionalidade. Se a percepção de previsibilidade regulatória e de consistência do enforcement piora, o desconto aumenta. Quando o desconto aumenta, o controlador adia. Quando o controlador adia, o mercado seca. Esse mecanismo não é brasileiro, ele é estrutural.


Por isso o contraste com os Estados Unidos é relevante sem cair em romantização. No fim de 2025, o Financial Times reportou que SpaceX, OpenAI e Anthropic estariam se preparando para abrir capital tão cedo quanto 2026 e isso não deve ser lido como profecia. Deve ser lido como sintoma de profundidade institucional e de um ecossistema que permite que empresas muito grandes, em certos momentos, influenciem o próprio ciclo de mercado. Em ecossistemas densos, janela é consequência de confiança, que advém de processos, ritos, compliance e de infraestrutura, não apenas de humor.


Aqui entra uma correção necessária para manter o texto no nível de pesquisador e especialista e não de torcida. A Perplexity não deve ser tratada como IPO de 2026. O próprio CEO, Aravind Srinivas, declarou que não há planos de IPO antes de 2028, ao responder rumores e dúvidas sobre pressão financeira. Então ela serve como outro tipo de evidência. Ela mostra a ansiedade do mercado por narrativas de saída e, ao mesmo tempo, mostra que cronograma sério se ancora em maturação, não em barulho, mesmo num mercado desenvolvido como o americano.


Voltando ao Brasil, é aqui que muita gente erra o diagnóstico e, por consequência, erra a preparação. A oportunidade para médias empresas em 2026 não é somente aprender rituais de governança para parecer pronta. Isso é maquiagem, e maquiagem não resiste ao escrutínio de um processo duro e seguro como esse. A oportunidade real é de construir uma cultura de compliance e implementar um sistema robusto desde a sua base operacional. Isso é o que sustenta confiança, reduz risco percebido e, quando a janela abre, reduz o desconto que o mercado impõe.


Esse argumento não é moralista, ele é técnico. Em mercado de capitais, bem-feito significa capacidade de prova. Significa que a empresa consegue sustentar o que afirma com rastreabilidade, consistência e consequência. Significa que número fecha, que decisão tem registro, que conflito de interesse tem tratamento, que risco tem dono, que desvio tem correção, que reincidência tem custo. Significa que a empresa não depende de heroísmo de donos, porque opera por padrão.


Quando eu digo cultura de compliance, eu não estou falando de departamento e nem de cartilha executada na risca. Estou falando do modo como a empresa decide quando ninguém está olhando. Estou falando de como ela trata regra em momento de pressão. Estou falando de como incentivos internos premiam ou punem comportamento. E isso precisa existir cedo, antes da empresa precisar parecer adequada para um evento de mercado e por isso eu acredito que muita empresa com potencial econômico não tem o mesmo em operação.


Esse é um ponto tradicional e, justamente por isso, sólido. Sempre foi assim. Capital vai para onde há previsibilidade, disciplina e integridade operacional. O que muda com o tempo é a embalagem. O núcleo não muda.


O Regime FÁCIL torna essa discussão ainda mais concreta porque ele cria um caminho proporcional. Se a regulação reduz fricção para companhias menores, o diferencial não vira cumprir o mínimo. O diferencial vira aguentar o julgamento do mercado. A simplificação regulatória não substitui a seleção econômica. Ela antecipa a seleção. Ela faz o mercado olhar para mais empresas. E isso, para quem não tem base, é mais duro do que parece.


Por isso 2026 pode ser um ano de boas oportunidades e ao mesmo tempo de oportunidades difíceis. Ano difícil é o ano em que o mercado troca promessa por método. É o ano em que governança real deixa de ser discurso e vira vantagem competitiva mensurável, porque reduz risco e afeta custo de capital relativo. É o ano em que a empresa que já opera com sistema robusto atravessa com mais estabilidade e ganha espaço, enquanto a empresa que opera por improviso perde energia tentando explicar o que não consegue provar.


O dado dos 54 emissores com documentação organizada é importante também por outro motivo. Ele revela que existe um estoque represado pronto para reagir ao primeiro sinal de previsibilidade. Quando o ciclo virar, ele não vai virar para todos ao mesmo tempo. Vai girar primeiro para quem estiver mais pronto. E aqui pronto não é ter uma apresentação bonita, pronto é ter uma estrutura que não precise ser reinventada na véspera.


No final de 2025 eu disse que 2026 não seria fácil. Eu sustento isso. Só que a consequência não é pessimismo. A consequência é método. Se a rampa para médias empresas estão sendo discutidas e operacionalizadas, se o regulador está ajustando cronograma e norma, se a bolsa está publicando guia e estimulando inclusão, então o país está, aos trancos, tentando organizar uma via de retomada pelo lado de operações menores e mais proporcionais.


A questão, para quem está construindo negócio perene, fica simples e exigente. Pois nesse momento não é esperar a janela e sim merece-la.


Agora me conta, o quanto você gostaria de participar disso e o quanto está preparado para ser uma empresa de outro patamar profissional?


Keine Alves

Líder educador, pesquisador e filósofo aplicado


Referências sobre o tema para pesquisa e informação












 
 
 

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