Mais de quatro anos sem IPO e uma rampa para as médias empresas começa a ser discutida, pois em 2026 o ano será de boas, mas de difíceis oportunidades
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 7 min de leitura

Em 2025 eu escrevi que 2026 não ia ser fácil, porque algumas tendências já apontavam para um ambiente mais seletivo. Vou deixar aqui o link daquele texto.
Não é para fazer o famoso “eu avisei”. É somente para usar a premissa como régua nesse primeiro artigo. Ano difícil não é opinião, é mecanismo. Ele encurta a paciência do capital, pune improviso e encarece o risco e precisamos falar dessas consequências abertamente.
O dado que organiza esse artigo é objetivo. O Brasil está há mais de quatro anos sem um ciclo real de IPO na B3. O marco mais aceito como último IPO daquele período é a Vittia, concluído em 2 de setembro de 2021, como a própria B3 registrou, esse intervalo não é só um jejum estatístico. Ele sinaliza que a engrenagem do equity como financiamento de crescimento ficou travada. Quando isso acontece, o capital não some. Ele troca de trilho, vai para dívida, vai para operações privadas, vai para consolidação via M&A, vai para fora, ou fica parado esperando previsibilidade.
Quem para nesse ponto transforma o dado em reclamação. Só que 2026 fica mais relevante justamente por ser difícil. Em ambiente tenso, com guerras, ruído geopolítico e capital seletivo, o mercado deixa de recompensar narrativa e volta a cobrar estrutura. Não é o ano do discurso bem embalado, é um ano em que método vira critério de sobrevivência e de avanço no mundo dos negócios, em especial no mercado de capitais.
E é aqui que entra o paradoxo que pouca gente está olhando com rigor. Mesmo com a seca de IPOs, o país começou a desenhar uma rampa institucional para companhias menores e, na prática, para um universo de empresas médias que precisam de um caminho proporcional. A CVM publicou a Resolução 232 em 3 de julho de 2025 a qual veio sendo ajustada e instituiu o regime FÁCIL, um arranjo pensado para facilitar o acesso a capital e incentivar listagens, com regras aplicáveis a Companhias de Menor Porte. O regime parte de um princípio antigo e correto. Reduzir fricção de forma proporcional, que pode ampliar participação, desde que não se destrua a substância que sustenta a confiança.
Esse detalhe importa. O FÁCIL simplifica forma, mas não transforma empresa frágil em empresa confiável. A CVM descreve um conjunto de ajustes e dispensas que alteram custo de observância, como o uso de formulários específicos e mudanças no pacote informacional, mas o regime continua sendo um ambiente regulado, com critérios e obrigações que precisamos aprender a lidar. A B3 também comunicou publicamente que está acelerando a inclusão de companhias de menor porte para alavancar o mercado e lançou um guia com regras, tipos de oferta e passo a passo para listagem no Regime FÁCIL. Isso é sinal de operacionalização, não apenas de intenção.
O calendário reforça que há arquitetura de verdade sendo colocada em pé. A CVM também com todo o seu desafio interno publicou a Resolução 236 em 9 de dezembro de 2025, alterando pontos do regime e adiou sua vigência para 16 de março de 2026. O adiamento, longe de enfraquecer o tema, indica maturação e necessidade de adaptação do ecossistema para as empresas. Regra séria não nasce pronta para todos no dia seguinte. Ela precisa encaixar em rotinas, sistemas, intermediários e emissores.
Ao mesmo tempo, o pipeline não evaporou. Em dezembro de 2025, uma diretora da B3 afirmou que 54 companhias já estavam com documentação organizada para abertura de capital e que existe um universo muito maior com potencial de listagem. Esse dado é um termômetro super importante para olharmos. Ele mostra que não falta empresa. Falta janela, falta preparo e, principalmente confiança.
E confiança que falo aqui não é um sentimento. Confiança é um requisito institucional que deve ser implementado através de uma série de elementos que é inevitável, preciso trazer Daron Acemoglu e James A. Robinson com a seriedade que eles exigem. O Nobel Prize em Ciências Econômicas de 2024 foi concedido a Acemoglu, Simon Johnson e Robinson por estudos sobre como instituições são formadas e afetam prosperidade.
A tese central é conhecida por qualquer leitor atento de economia institucional. Prosperidade depende dessa confiança que é sustentada por regras, enforcement, previsibilidade e contenção do oportunismo. Quando instituições falham, o custo do risco sobe e o investimento recua. No mercado de capitais, isso aparece de forma direta. O investidor não precifica apenas projeção de receita. Ele precifica qualidade do ambiente onde aquele fluxo de caixa será reportado, auditado, cobrado e fiscalizado.
Esse ponto conecta diversas oportunidades no Brasil a 2026 sem precisar de frases motivacionais. Uma seca longa de IPO é, em parte, macroeconomia e custo de capital. Mas também é preço de institucionalidade. Se a percepção de previsibilidade regulatória e de consistência do enforcement piora, o desconto aumenta. Quando o desconto aumenta, o controlador adia. Quando o controlador adia, o mercado seca. Esse mecanismo não é brasileiro, ele é estrutural.
Por isso o contraste com os Estados Unidos é relevante sem cair em romantização. No fim de 2025, o Financial Times reportou que SpaceX, OpenAI e Anthropic estariam se preparando para abrir capital tão cedo quanto 2026 e isso não deve ser lido como profecia. Deve ser lido como sintoma de profundidade institucional e de um ecossistema que permite que empresas muito grandes, em certos momentos, influenciem o próprio ciclo de mercado. Em ecossistemas densos, janela é consequência de confiança, que advém de processos, ritos, compliance e de infraestrutura, não apenas de humor.
Aqui entra uma correção necessária para manter o texto no nível de pesquisador e especialista e não de torcida. A Perplexity não deve ser tratada como IPO de 2026. O próprio CEO, Aravind Srinivas, declarou que não há planos de IPO antes de 2028, ao responder rumores e dúvidas sobre pressão financeira. Então ela serve como outro tipo de evidência. Ela mostra a ansiedade do mercado por narrativas de saída e, ao mesmo tempo, mostra que cronograma sério se ancora em maturação, não em barulho, mesmo num mercado desenvolvido como o americano.
Voltando ao Brasil, é aqui que muita gente erra o diagnóstico e, por consequência, erra a preparação. A oportunidade para médias empresas em 2026 não é somente aprender rituais de governança para parecer pronta. Isso é maquiagem, e maquiagem não resiste ao escrutínio de um processo duro e seguro como esse. A oportunidade real é de construir uma cultura de compliance e implementar um sistema robusto desde a sua base operacional. Isso é o que sustenta confiança, reduz risco percebido e, quando a janela abre, reduz o desconto que o mercado impõe.
Esse argumento não é moralista, ele é técnico. Em mercado de capitais, bem-feito significa capacidade de prova. Significa que a empresa consegue sustentar o que afirma com rastreabilidade, consistência e consequência. Significa que número fecha, que decisão tem registro, que conflito de interesse tem tratamento, que risco tem dono, que desvio tem correção, que reincidência tem custo. Significa que a empresa não depende de heroísmo de donos, porque opera por padrão.
Quando eu digo cultura de compliance, eu não estou falando de departamento e nem de cartilha executada na risca. Estou falando do modo como a empresa decide quando ninguém está olhando. Estou falando de como ela trata regra em momento de pressão. Estou falando de como incentivos internos premiam ou punem comportamento. E isso precisa existir cedo, antes da empresa precisar parecer adequada para um evento de mercado e por isso eu acredito que muita empresa com potencial econômico não tem o mesmo em operação.
Esse é um ponto tradicional e, justamente por isso, sólido. Sempre foi assim. Capital vai para onde há previsibilidade, disciplina e integridade operacional. O que muda com o tempo é a embalagem. O núcleo não muda.
O Regime FÁCIL torna essa discussão ainda mais concreta porque ele cria um caminho proporcional. Se a regulação reduz fricção para companhias menores, o diferencial não vira cumprir o mínimo. O diferencial vira aguentar o julgamento do mercado. A simplificação regulatória não substitui a seleção econômica. Ela antecipa a seleção. Ela faz o mercado olhar para mais empresas. E isso, para quem não tem base, é mais duro do que parece.
Por isso 2026 pode ser um ano de boas oportunidades e ao mesmo tempo de oportunidades difíceis. Ano difícil é o ano em que o mercado troca promessa por método. É o ano em que governança real deixa de ser discurso e vira vantagem competitiva mensurável, porque reduz risco e afeta custo de capital relativo. É o ano em que a empresa que já opera com sistema robusto atravessa com mais estabilidade e ganha espaço, enquanto a empresa que opera por improviso perde energia tentando explicar o que não consegue provar.
O dado dos 54 emissores com documentação organizada é importante também por outro motivo. Ele revela que existe um estoque represado pronto para reagir ao primeiro sinal de previsibilidade. Quando o ciclo virar, ele não vai virar para todos ao mesmo tempo. Vai girar primeiro para quem estiver mais pronto. E aqui pronto não é ter uma apresentação bonita, pronto é ter uma estrutura que não precise ser reinventada na véspera.
No final de 2025 eu disse que 2026 não seria fácil. Eu sustento isso. Só que a consequência não é pessimismo. A consequência é método. Se a rampa para médias empresas estão sendo discutidas e operacionalizadas, se o regulador está ajustando cronograma e norma, se a bolsa está publicando guia e estimulando inclusão, então o país está, aos trancos, tentando organizar uma via de retomada pelo lado de operações menores e mais proporcionais.
A questão, para quem está construindo negócio perene, fica simples e exigente. Pois nesse momento não é esperar a janela e sim merece-la.
Agora me conta, o quanto você gostaria de participar disso e o quanto está preparado para ser uma empresa de outro patamar profissional?
Keine Alves
Líder educador, pesquisador e filósofo aplicado
Referências sobre o tema para pesquisa e informação



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