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Atenção ao erro de contratação que pode destruir sua empresa!

Como líderes entregam, sem perceber, a chave da cultura para quem vai usá-la contra a própria organização.


Eu já cometi esse erro. E, se você lidera pessoas, é bem possível que também já tenha cometido.

Não estou falando apenas de falhas no processo de recrutamento ou de entrevistas conduzidas de forma apressada. O verdadeiro problema está em nós, líderes, quando nos afastamos de uma das decisões mais estratégicas e sensíveis de qualquer organização: escolher quem terá lugar no time.


Não importa o porte da empresa. O que realmente importa é que, quando a contratação é estratégica, a liderança precisa agir como guardiã principal da porta de entrada ou ter representantes legítimos e altura.


Antes que alguém ache exagero, centralização ou excesso de controle, é preciso compreender que estamos falando de proteger algo que sustenta resultados, que chamo de cultura e reputação, ou você é um daqueles que quando desatento deixa qualquer um entrar na sua casa?


Por mais estranho que pareça, esse papel não pode ser delegado de forma automática. Não pode ser reduzido a uma assinatura protocolar em um currículo já aprovado ou a um sim rápido depois de uma conversa superficial.


Estar presente nesse momento é mais do que entrevistar. É observar, testar coerência, sentir o alinhamento de valores e medir se a energia da pessoa realmente combina com o que a empresa precisa e faz.


O problema é que, na corrida para preencher uma vaga, a pressa distorce nossos critérios. Confundimos entusiasmo com competência, presença com preparo, disponibilidade com compromisso, posicionamento com caráter e assim por diante. É nessa distorção que o erro nasce, e ele não é pequeno.


Não estamos falando de um simples contratempo. Estamos falando de abrir, sem perceber, uma brecha real para que o tipo errado de pessoa entre e se instale. No começo, essa porta aberta pode parecer até inofensiva, tanto que ela passa desapercebida, mas o risco que ela representa é silencioso, acumulativo e, muitas vezes, irreversível quando finalmente se revela.


Essa semana, numa conversa com um cliente, voltei a refletir sobre esse movimento que já vi se repetir tantas vezes. Percebi, mais uma vez, como ele compromete empresas inteiras, enfraquece lideranças e corrói culturas.


Foi nesse instante que a imagem ficou clara: quando erramos nessa escolha, não contratamos apenas alguém para uma função, nós abrimos o palco e acendemos as luzes para que o personagem errado entre em cena.


Quando abrimos a porta para o personagem errado que não conhecemos


No começo, tudo parece perfeito diante de nossos olhos, mentes e corações aflitos pelas possibilidades que se abrem.


Pressionados pelo momento, muitos de nós líderes recebemos uma pessoa sem perceber o essencial, pois quem chega com um sorriso impecável, demonstrando interesse, que agradece com entusiasmo pela oportunidade e se oferece para ajudar em diferentes frentes, até mesmo além daquilo para o qual foi contratado nos gera alívio e alegria.


Mas não se iluda, essa postura inicial busca cativar desde a largada, instalando a impressão de que, finalmente, encontramos alguém comprometido e pronto para vestir a camisa.


É justamente por essa sensação de alívio e expectativa que poucos se perguntam se aquela entrega é realmente autêntica ou se faz parte de uma máscara.


O personagem errado domina a arte de manipular e observar antes de agir, e identificar esse padrão é vital. Mede cada palavra, ajusta cada gesto e, de forma quase imperceptível, mapeia a dinâmica de poder e influência na empresa.


Rapidamente percebe quem detém a capacidade de decidir, quem carrega fragilidades operacionais, comerciais ou emocionais, quem é mais suscetível à influência e quem vale a pena manter por perto como aliado estratégico.


Pessoas assim são pacientes e silenciosas, mas deixam pequenos sinais para quem sabe observar. Encenar é sua competência mais refinada. Colocam-se como pacificadoras, evitando rupturas visíveis, enquanto se infiltram como água que encontra pequenas frestas, ocupando espaços simbólicos e consolidando, pouco a pouco, uma imagem de confiabilidade quase incontestável.


A gentileza, que para alguns é expressão genuína de caráter, para ele é ferramenta estratégica. A disponibilidade é calculada e, mais tarde, pode ser usada como argumento de abuso sofrido, mesmo que tenha sido combinada de forma transparente no início.


Sua participação em projetos serve mais como vitrine do que como entrega efetiva. Os elogios são milimetricamente direcionados às pessoas certas, não como reconhecimento, mas como investimento em futuros favores.


Até as histórias pessoais que compartilham são escolhidas com precisão e usam em geral pontos afetivos extremos ligados a parentes próximos, destinadas a despertar empatia e proximidade, criando um escudo emocional contra qualquer possível questionamento.


Enquanto todos se deixam envolver por essa presença agradável, um processo invisível já está em andamento, pois a pessoa errada registra informações, guarda mensagens, acumula prints e anota detalhes de conversas aparentemente triviais.


Nada é usado imediatamente, mas cada fragmento é armazenado com um objetivo silencioso: reinterpretar esses elementos no futuro, transformando-os em argumentos, provas seletivas ou peças de uma narrativa construída para servir exclusivamente aos seus próprios interesses.


Com o tempo, ocorre a virada. Essa pessoa já não está comprometida com o futuro da organização, mas com a história que quer contar sobre si mesma quando decidir sair ou provocar sua saída para a geração de seu benefício pensado.


A narrativa se afasta dos fatos e se aproxima de um enredo no qual ela é sempre a protagonista injustiçada: vítima de omissões, exigências excessivas ou de um ambiente que, segundo sua própria versão, não soube reconhecê-la.


Enquanto isso, a liderança, ainda sob o efeito da imagem cuidadosamente construída, não percebe que já não lida mais com alguém que colabora, mas com um adversário oculto que opera em função de objetivos próprios.


O impacto é profundo. A confiança não se desgastou lentamente, ela simplesmente foi rompida de forma brusca, revelando-se como desconfiança aberta. A cultura, antes sólida da empresa, agora sofre um ataque direto sob a contaminação silenciosa que é promovida ao longo do tempo pela pessoa errada.


E não vamos esquecer que tudo isso começa no mesmo ponto, numa decisão de contratação muitas vezes sem o envolvimento direto de nós líderes, pois diante de algo tão sutil quanto determinante, a leitura real de quem estamos trazendo para dentro do espaço mais valioso da empresa, se faz mais que necessária,


Líderes como guardiões da porta de entrada


Se a origem do problema está na porta que deixamos aberta, a solução está na forma como escolhemos quem pode atravessá-la. Essa não é uma responsabilidade que possa ser delegada sem critério, nem algo para ser decidido apenas com base em impressões rápidas ou respostas bem ensaiadas. É um papel inegociável da liderança, especialmente quando se trata de contratações estratégicas.


Ser guardião da porta de entrada é muito mais do que aprovar um currículo ou conduzir uma entrevista final. É participar ativamente do processo, investigando de forma inteligente não apenas as competências técnicas, mas também a coerência entre discurso e prática, a forma como a pessoa lida com frustração, com limites, com expectativas não atendidas.


É observar nos mínimos detalhes os comportamentos, pedir referências qualificadas e criar situações no processo que permitam perceber a essência, não apenas a performance.


E aqui, a analogia com o casamento é inevitável. Ninguém decide se casar com alguém apenas depois de um encontro agradável e algumas conversas. Uma união verdadeira exige tempo de convivência, exposição a diferentes contextos e a certeza de que existe compatibilidade real de valores e propósitos. Assim como no casamento, a decisão de quem entra para o seu time é uma escolha que afetará profundamente a vida em comum dali para frente.


A empresa, como um relacionamento sério, não pode ser construída com base em encantamento momentâneo ou em discursos sedutores. É preciso verificar se a pessoa está disposta a construir de fato, a enfrentar dificuldades, a sustentar a confiança ao longo do tempo. E isso não se identifica apenas na entrevista, se constrói num processo bem desenhado, que funcione como um “validador inteligente” para separar aqueles que representam potencial genuíno daqueles que apenas vestem o figurino perfeito.


O casamento com a pessoa errada pode destruir uma família e a contratação errada pode destruir uma empresa. E assim como ninguém entregaria o coração sem antes conhecer profundamente o outro, não devemos entregar a cultura, os valores e o futuro da organização para alguém que não tenha provado, de forma clara e consistente, que merece estar nesse espaço.


Ser guardião da porta é um ato de proteção, mas também de respeito. Respeito ao trabalho que foi construído, às pessoas que já estão no time e à própria visão de futuro da empresa. No fim, essa é a fronteira que separa as organizações que preservam sua cultura das que a entregam, de bandeja, para ser reescrita por quem nunca esteve realmente comprometido com ela.


O chamado à consciência


Toda empresa, em algum momento, será testada não apenas pelo mercado, mas pelas pessoas que escolhemos colocar dentro de casa. Esses testes não chegam com aviso. Eles se disfarçam de boas intenções, de sorrisos confiantes, de discursos alinhados. E, quando percebemos, já não estamos diante de uma simples relação de trabalho, mas de um jogo de narrativas que ameaça a confiança e a essência da cultura.


Ser líder não é apenas entregar resultados e bater metas. É ter a coragem de proteger o espaço onde esses resultados nascem. É dizer não, mesmo quando a pressa ou a necessidade gritam pelo sim. É lembrar que a pressa de preencher uma vaga pode custar anos de reconstrução cultural e até financeira.


A porta da empresa não é apenas física, ela é simbólica. Cada contratação é uma aposta no futuro, e cada pessoa que entra carrega o poder de fortalecer ou corroer aquilo que foi construído com tanto esforço. Deixar essa decisão ser tomada por conveniência, pressa ou excesso de confiança é como entregar as chaves da sua casa para um desconhecido apenas porque ele fala bem e sorri no momento certo.


A responsabilidade de quem lidera é intransferível. Cabe a nós garantirmos que apenas aqueles que compartilham valores reais, e não apenas o figurino tenham espaço para atuar. Porque, no fim, não é o personagem mais convincente que constrói a história certa, mas a pessoa disposta a viver de verdade aquilo que o discurso promete.


O teste real da liderança é este: manter a porta aberta para o talento e fechada para a encenação. E a única forma de fazer isso é com atenção, presença e compromisso inegociável com a verdade.

Tudo o mais é se arriscar a entregar, de bandeja, não apenas o palco, mas também o roteiro da sua própria empresa para quem nunca quis contar a história certa.


Keine Alves

Líder educador e pesquisador


 
 
 

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