2026 o ano em que foco deixa de ser discurso e precisa virar ação coerente e consistente e suas tendências
- Keine Alves

- 9 de fev.
- 6 min de leitura

Tem anos em que o mundo dos negócios corre no modo automático e tem anos em que o calendário já nasce nos avisando que não haverá espaço para improviso. 2026 é desse segundo tipo. Não será um ano comum. Será um teste de maturidade para lideranças que gostam de falar em foco, estratégia, inovação e tecnologia. Só que desta vez o discurso não vai bastar.
Teremos eleições presidenciais movimentando o país inteiro, Copa do Mundo mexendo com atenção, consumo e agenda, um número generoso de feriados com boas possibilidades de emenda e, na prática, um tempo útil de trabalho bem menor para quem precisa entregar resultado. Em paralelo, o ambiente econômico segue pressionado, a reforma tributária começa a fazer efeito, a competição acelera, a margem aperta e a tecnologia muda o jogo num ritmo que não respeita a nossa zona de conforto.
É nesse cenário que vale olhar para algumas tendências que já estão postas e entender como elas exigem um tipo de foco diferente daquele que aparece em slide de apresentação. Foco em 2026 não é uma palavra bonita. É uma disciplina dura de escolha, renúncia, priorização e execução coerente dia após dia.
No campo econômico, 2026 tende a continuar sob influência de juros ainda elevados, exigindo mais rigor na alocação de capital e nas decisões de investimento. Não é ano para aventuras inconsequentes. É ano para separar o que é essencial do que é apenas desejável. A reforma tributária deve começar a gerar impactos concretos nas operações ao longo dos próximos anos, mexendo em margens, estruturas societárias, precificação, relacionamento com clientes e fornecedores. Quem ainda olha tributo apenas como obrigação contábil vai descobrir que isso virou variável estratégica.
Ao mesmo tempo, movimentos de câmbio podem aliviar pontualmente custos ligados à infraestrutura tecnológica, especialmente em nuvem, mas esse eventual alívio não deveria ser interpretado como convite para relaxar e voltar ao velho hábito de gastar sem medir. Pelo contrário. Qualquer fôlego adicional que surgir em 2026 precisa ser canalizado para organizar a casa financeira e tecnológica. Quem usar essa brecha para corrigir rota sai na frente. Quem usar para se distrair perde vantagem competitiva.
No eixo da tecnologia, a mudança mais profunda é a consolidação da inteligência artificial como infraestrutura e não mais como adereço de inovação. Em 2026, não fará sentido falar em IA como algo paralelo ao negócio. O centro da conversa será a qualidade dos dados, a integração entre sistemas, o desenho da arquitetura de informação e a capacidade de transformar tudo isso em decisões melhores, processos mais enxutos e experiências mais inteligentes para clientes e colaboradores.
É aqui que muita empresa escorrega. Implementa uma ferramenta, um assistente inteligente, um recurso bonito na interface, mas mantém os dados espalhados, desatualizados, em silos que não se conversam. É o equivalente a instalar um motor potente num carro com as rodas desalinhadas. A tendência para 2026 é clara. IA deixa de ser vitrine e passa a ser parte da engrenagem. Isso exige consolidar bases, criar padrões de integração, investir em governança de dados e assumir que tecnologia não é assunto exclusivo da área de tecnologia e sim do negócio.
Em paralelo, o software em si continua caminhando para a comoditização. Ferramentas low code e no code, serviços em nuvem cada vez mais acessíveis, bibliotecas prontas e a própria IA facilitando desenvolvimento reduzem barreiras de entrada. A consequência é simples. Ficar só na conversa de funcionalidade não sustenta mais modelo de negócio. Em 2026, o valor real estará na capacidade de integrar com o ecossistema do cliente, na profundidade dos dados que se consegue capturar e tratar, na segurança da informação efetivamente praticada e na inteligência que se consegue acoplar ao uso da solução.
Segurança cibernética, aliás, deixa de ser argumento lateral e passa a ser passaporte de entrada em muitos mercados. Normas como a ISO 27001 ganham ainda mais relevância na escolha de fornecedores, especialmente quando falamos de grandes clientes, mercados internacionais e setores regulados. Não basta dizer que a empresa se preocupa com segurança. Será cada vez mais necessário demonstrar maturidade em processos, controles, auditorias, respostas a incidentes, testes de invasão, governança de acessos. 2026 tende a ser o ano em que empresas sem postura séria nesse campo serão descartadas muito antes de discutir preço.
Quando o assunto é internacionalização, a tendência não é megalomania. É foco. Falar em operar em diferentes países deixou de ser novidade. A pergunta é muito mais direta. Em quais mercados faz sentido estar, com qual proposta de valor, com que capacidade real de suporte, com qual estrutura tributária e jurídica e com que compromisso de adaptação cultural. Brasil, Estados Unidos e alguns países da América Latina formam um eixo natural de expansão para muitos negócios, especialmente em tecnologia. Mas isso não é simples. Requer entender fusos, línguas, contratos, regimes de tributação e exigências locais de segurança e compliance. Em 2026, internacionalizar por vaidade será caro. Internacionalizar com foco, métrica e estratégia pode ser a grande alavanca de crescimento.
Nenhum desses movimentos acontece sem gente preparada. E é aqui que outra tendência se impõe. A disputa por talentos qualificados continua intensa, mas a tolerância com baixa performance tende a diminuir. Ao mesmo tempo em que a IA assume tarefas repetitivas e operacionais, aumenta a demanda por pessoas capazes de pensar cenário, conectar áreas, desenhar soluções, conversar com cliente em alto nível e traduzir necessidade de negócio em desenho de processo com a aplicação e uso de tecnologia. Em 2026, o desafio deixa de ser apenas contratar. Passa a ser manter coerência entre remuneração, responsabilidade e entrega real. Isso exige coragem para enfrentar distorções internas, revisar funções, treinar continuamente e usar indicadores concretos para avaliar o que cada time e cada pessoa está entregando.
Na frente de custos, especialmente os ligados a nuvem e infraestrutura, não haverá espaço para ingenuidade. Ofertas locais, novos data centers, modelos híbridos e ajustes de preço podem abrir oportunidades de redução de despesa, mas qualquer movimento precipitado pode criar novos aprisionamentos tecnológicos. A tendência saudável para 2026 é amadurecer a conversa entre tecnologia e finanças, discutir ROI com profundidade, simular cenários, projetar crescimento de uso e entender o custo total de propriedade no médio prazo. Decisão de infraestrutura deixa de ser assunto fechado em uma área apenas. Passa a ser tema de conselho.
Tudo isso se conecta com uma outra dimensão que tende a ganhar mais relevância. Compliance e qualidade. Programas públicos de digitalização, produtividade, inovação em IA, linhas de financiamento, parcerias com universidades e hubs internacionais frequentemente exigem governança sólida, transparência, canais de denúncia, controles mínimos bem estruturados. Em 2026, empresas que trataram compliance apenas como custo vão perceber o tamanho da oportunidade que deixaram na mesa. Já aquelas que encararam esse trabalho com seriedade tendem a acessar projetos, parcerias e editais que reforçam crescimento sustentável e reputação.
Somando essas tendências com o calendário específico do ano, o quadro se torna bem pragmático. Teremos um ambiente macroeconômico que ainda exige cautela, reformas mexendo em tributos e margens, tecnologia apertando o ritmo com IA na base da operação, clientes mais exigentes em segurança, competição global mais acirrada e, ao mesmo tempo, um ano com eleições, Copa do Mundo e uma sequência de feriados que reduzem o tempo útil de execução. Se a empresa não fizer escolhas claras, não priorizar, não alinhar estratégia com operação e não assumir disciplina de execução, o resultado será previsível. Em novembro a sensação será de que o ano voou e nada saiu como deveria.
A boa notícia é que 2026 pode ser visto também como um grande laboratório de foco. Não há como controlar o calendário, mas há como controlar a forma como se responde a ele. Dá para planejar olhando antecipadamente os períodos de maior dispersão, concentrar entregas críticas em janelas de maior disponibilidade, alinhar expectativas com clientes e times, ajustar campanhas comerciais à maré de atenção do público, programar investimentos com consciência do ambiente eleitoral e das incertezas que virão.
O ponto central é que nada disso se resolve com um único grande planejamento feito no início do ano. Exercícios de tendência e cenário funcionam como varrer o chão. Você varre hoje. Amanhã a poeira volta. Depois de amanhã, também. Não é porque você fez um excelente diagnóstico agora que o contexto continuará o mesmo em março, em junho ou em setembro. Novas regulações surgem, decisões políticas alteram expectativas, concorrentes lançam produtos, tecnologias barateiam, câmbio oscila, comportamentos mudam. Todos os dias algum tipo de poeira estratégica vai se acumular no chão da empresa.
Por isso, mais do que um plano impecável, 2026 vai exigir disciplina de revisão constante. Rever hipóteses. Ajustar prioridades. Recalibrar metas. Corrigir rota com naturalidade. Não se trata de instabilidade, mas de maturidade. Empresas que entenderem esse movimento e criarem rituais para revisitar cenário, acompanhar indicadores e decidir com base em dados terão vantagem. Vão errar também, mas errarão rápido e corrigirão cedo.
Vale então fechar com uma pergunta que não é retórica. Na sua organização, quem está varrendo o chão estratégico todos os dias?
Existe um espaço real e recorrente para revisar cenários, atualizar decisões e ajustar o uso de tecnologia e recursos ao que o contexto exige ou essa tarefa aparece apenas quando a crise já está batendo na porta?
2026 será desafiador, sem dúvida. Mas também pode ser um ano de avanço consistente para quem transformar foco em prática cotidiana. A poeira não vai deixar de voltar. A diferença estará entre quem finge não ver e quem escolhe enfrentar o incômodo de varrer o chão todos os dias com coerência, constância e coragem para ajustar o que for preciso.



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